postais da ria (48)


a aparente calma da ria

a aparente calma da ria

aos senhores da terra

de longe vem a umbilical corda
de muito longe
no dizer da terra onde vós
“não agouchais”
o tão que é

erguer-se-iam do chão as vozes
dos mais antigos
desconhecendo ser esta a terra sua
por vós marcada
se possível fosse coisa tal

ilusão vossa a de serdes mais do que
debaixo vos olham e enormes
ínfimos se de mais alto
vêde-vos tão pouco

quem disse que podieis?

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(murtosa; cais do bico)

postais da ria (47)


ilusão ou realidade?

ilusão ou realidade?

sê a pedra

quebra o silêncio
diz o necessário
acorda o alheamento
a ignorância de
o não saber

importa pouco se
de perder for
importa muito que
fiel a ti sejas

nenhuma derrota
é vitória de outro
só tu te derrotas
só tu

sê a pedra

a luz

a luz

(ria de aveio; canal de ovar)

crónicas da xávega (29)


e o s. josé galga a onda

e o s. josé galga a onda

perde-se no longe do tempo
o haver mar

tarde chegou o homem
a estas praias
trazido por caminhos
perdidos por aí

cedo venceu o medo
não fora homem
cedo ganhou o mar
não fora gente
cedo comeu o estranho pão
não tivera fome

resistem ainda alguns
em praias quase desertas
abandonados à sua sorte
pelos donos da terra

eles que vencem o mar
que não temem o medo
morrem nas secretarias
assassinados por burocratas

perdem-se no tempo
sobrevivem

heróis do mar

heróis do mar

(praia de mira; companha do zé monteiro)

crónicas da xávega (28) – e tu?


estendido o saco, abri-lo-ão e o sol virá depois secá-lo

estendido o saco, abri-lo-ão e o sol virá depois secá-lo

escorregar pelos dias
deitado no chão herdado
imóvel
quase não vivo
quase

tão fácil não ser
tão fácil o sim a todos
tão cómodo

sentado na soleira da porta
qual gato à espera da festa
que festa poderá haver
nunca se sabe

os mortos agradam a todos
porque estão

e tu?

virá o sol

virá o sol

(torreira; companha do marco; 2012)

postais da ria (45) – meditação à beira de


marina dos pescadores, torreira, maré cheia

marina dos pescadores, torreira, maré cheia

mais que eu
sou todos os que antes de mim
acrescentaram páginas ao livro da memória
deixaram-me o recebido
distribuo-o

o que resta do ter sido
o ser eu aqui inquieto
enquanto

quebro o vidro atravesso-o
firo-me sangro toco tudo
até onde

estou vivo

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(torreira; marina dos pescadores)

postais da ria (44) – um moliceiro à maneira


o moliceiro "cristina e sara", do ti virgílio, é de tamanho inferior ao de um moliceiro tradicional, mas como ele há pelo menos 4 a vogar nas águas da ria

o moliceiro “cristina e sara”, do ti virgílio, é de tamanho inferior ao de um moliceiro tradicional, mas como ele há pelo menos 4 a vogar nas águas da ria

reconheço-lhe a elegância
no fino traço dos mestres construtores
a tradição inscrita na beleza
com que vogava e ainda voga
nas águas da ria

passou o tempo do adubo natural
do moliço colhido no fundo da ria
broa de milho comida à mesa
com sabor a maresia

foi o tempo do trabalho da ferramenta
não foi o fim do tempo
mas o começo de uma nova aventura
a do amor por ti pelo que foste pelo que és
o da preservação da história de um povo
o murtoseiro

não te quero num canto qualquer coberto de pó
abandonado pelos que ajudaste a crescer
pelos falsas manifestações verbais de afecto
não quero sequer que te façam um retrato novo
onde já não moras porque nunca foste
para melhor venderem o que já não têm

quero-te assim
um moliceiro à maneira

um moliceirinho à maneira

um moliceirinho à maneira