os moliceiros têm vela (27)


são tantos

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram

vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram

lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia

são os rios desta terra

homem da ria

homem da ria

(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (59)


para o antónio gama

o dia cai e nós

o dia cai e nós . . . 

hoje vi-te quando
abri o jornal
antes não o tivesse
aberto e visto

continuaria na ilusão
de que tu ainda
embora sem te ver

ficámos mais pobres
mais sós em nós
porque tu sim tu

à hora a que escrevo
(e não sei se consigo)
vais pela mão de outros
para uma cova
onde o teu nome
um retrato
não tu

os amigos vão-se
e eu fico mais pequeno ainda

abraço antónio

como em sangue

como em sangue

(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (26)


és tu

(a muitos amigos)

homens e barcos, o mesmo nome, a mesma luta

homens e barcos, o mesmo nome, a mesma luta

escrever com erros
não é ser menos
é não ter tido como

erro é escrever sem sentir
só para mostrar
que se sabe juntar palavras

erro é esperar que escrevam
para escrever
erro é ser “escriba à janela”

escreve meu amigo
diz o que no ser te vai
que és mais muito mais

és tu

ahcravo_DSC_1013
(torreira; regata s.paio; 2013)

os moliceiros têm vela (25)


a (minha) matemática do tempo

ouço-me para te ouvir

ouço-me para te ouvir

somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem

quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei

um ano mais
um ano menos

um ano apenas

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (24)


MOLICEIROS SEMPRE!

a caminho do novo ano

a caminho do novo ano

quando a pedra floriu
o chão sorriu
de ter enganado o semeador

sabedoria antiga
não bebe vinho a martelo

nas águas plácidas da ria
outra pedra caiu
em círculos riscados à tona
por instantes
a sua memória espelhada

nada mais
nada

um ano novo a colorir de moliceiros

um ano novo a colorir de moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

FELIZ ANO NOVO

os moliceiros têm vela (23)


como eu gosto deles

velas ao vento, pouco, deslizam

velas ao vento, pouco, deslizam

o seu lugar favorito
é a janela virada ao sol
atentos observam

de tudo bebem e se fazem
são
o repositório por excelência

rígido o corpo atento
olhos abertos
buscam a presa do dia

da janela registam
um deslize
um passo em falso
um quase erro

súbito saltam e

falo dos gatos

pinto-os e são mais meus

pinto-os e são mais meus

(torreira; regata do s. paio; setembro, 2012)

crónicas da xávega (38)


as mãos

a saco aproxima-se da praia, os bordões apertam as mangas. quem sabe se peixe?

a saco aproxima-se da praia, os bordões apertam as mangas. quem sabe se peixe?

regresso sempre às mãos
às mãos e ao peso
que sobre elas
tudo

ao pão suado salgado
sofrido esmifrado

aos braços ferramenta
aos escravos da fome
dos filhos do hoje
do manhã do nunca
do sonho
do desespero
da esperança

regresso sempre às mãos
nem sempre
vazias

as cores da esperança, do esforço, do salgado suor dos homens do mar

as cores da esperança, do esforço, do salgado suor dos homens do mar

(torreira; companha do marco; 2012)

os moliceiros têm vela (22)


dos amigos

como se num baile

como se num baile

sê verdadeiro com todos
os amigos
o tempo dir-te-á quem

uma pedra bateu na janela
estilhaçou o vidro
o vento bateu-te no rosto

atirada de dentro da casa comum
por mão amiga dita
feriu-te mais o sentir que o saber

joeira os homens
como o agricultor o milho
não desistas de ti

há mais caminhos que pedras

dancem e brilhem os olhos de tanto

dancem e brilhem os olhos de tanto

(torreira; regata do s. paio, setembro; 2014)