estou vivo
coado escorre
pelas mãos o tempo
os mais belos momentos
nos dedos
presos
morrer é não
deixar rasto
perco-me
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
sabe-te
na concha das mãos
coisa pouca
quanto baste para
matar a sede
não tem dono a água
deu-a a rocha
e quedou-se silenciosa
os nomes são letras
mãos dadas
palavras
na concha das mãos
um barco
oferta de um tempo
de ninguém
porque de todos
ilusão o seres dono
tão breve é o seres aqui
depositário apenas
da memória comum
sabe-te saberás
(ria de aveiro; regata da ria; junho, 2014)
falo de ti
admito que penses
sei que existes
e por isso deves
admito que tenhas opinião
sei que existes
e por isso deves
admito que deves
admito que penses
até admito que admitas
que eu pense que tu existes
e a tua opinião
é escrava dos teus
interesses
(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)
meditação à beira ria
vou por onde
caminhos houver por
de água serão se
necessário for
não os temo
foi tempo de subir
e recusei
foi tempo de voar alto
dobrando-me
“vê se sobes na vida filho”
e eu
“não quero subir quero ficar ao lado”
ficou-me hirta a coluna
abertos os olhos atentos
pronta a palavra necessária
não subi
verdade se diga
mas fiz alguns
ficarem
ao nível do chão
(ria de aveiro; murtosa; bestida)
haja janelas
falo agora de um tempo cansado
curvado ao peso dos dias
o meu tempo
eu
é duro neste tempo onde o meu por dentro
olhar e ver
sentir
ser irmão do irmão
e irmão de ainda mais
solidão não é estar só
é estar mal acompanhado
falo de mim e digo
amanhã serei o mesmo
doa o que doer
a quem doer
haja janelas
(murtosa; regata do bico; 2007)
eis a questão
ser ou não ser
não é a questão
ambos são
fazer ou não fazer
essa sim
a grande questão
faz-se o homem como caminho
fazendo-se
fazendo
o silêncio que a ria respira
é uma forma de ser
o silêncio que do homem transpira
é o seu não ser
eis a questão
(ria de aveiro; torreira)
os moliceiros têm vela (17)
voa meu barco voa
há um barco menina
vogando nas águas da ria
cabelo ao vento
corpo aberto ao sal
voa meu barco voa
não deixes que te cortem as asas
és belo demais
de bica erguida
corta o tempo a direito
que mais não é que outro vento
deixa os homens não o serem
e sê tu mesmo se contra eles