postais da ria (63)


do sonho

o povoamento da ria

o povoamento da ria

afundaram-se as ilhas
de cansaço
apagaram-se estrelas

sorriu uma ave
suspirou uma flor
chorou uma pedra

sonhei tudo isto
e tudo foi verdade
porque o sonhei

isso me basta

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

(ria de aveiro; mariscar)

postais da ria (62)


gente da torreira

da ria, naturalmente

da ria, naturalmente

crescem com a ria
conhecem cedo o sal do pão
que comem

há um sorriso para a fotografia
há trabalho que se confunde com recreio
só vais para a ria se tiveres boas notas

não é trabalho infantil
é começar cedo a viver a ria
sem saber de amanhã

é a gente da torreira

ahcravo_DSC_1614_fim de dia

(torreira; marina dos pescadores)

os moliceiros têm vela (32)


dos dias

sucedem-se no tempo e ...

sucedem-se no tempo e …

amanhã outro dia será
comigo ou sem
o tempo seguirá o seu curso
sereno e ridente

uma flor abrirá algures
as pétalas ao sol
uma criança beijará a mãe
e muitos terão partido

hoje sou e canto

e o vento?

e o vento?

(ria de aveiro; regata da ria; 2011)

crónicas da xávega (39)


quando eu chegar

é tempo de mar

é tempo de mar

quando eu chegar
que seja num dia de sol
com cheiro a maresia

trago sede de sal
fome de navegar

vim para ser aqui
haja barco que me leve
possa eu embarcar

trago sede de sal
fome muita de mar

e todos ficaram encharcados

e todos ficaram encharcados

(torreira; companha do marco; 2014)