de mim


 

ahcravo_DSC_2156_gaivota ria

 

dos caminhos andados

aprendi a dizer o que penso

a não querer estar de bem com todos

se comigo de bem não estiver

(fácil seria não ser como sou para maioria ser)

 

quem quer estar de bem com deus

e com diabo

vai para o inferno pela mão

de deus

(isso digo há muito)

 

dos caminhos andados

aprendi que a verdade calada

vale menos que a mentira apregoada

 

estar vivo

não é deixar estar

é ser aqui

de olhos abertos

ouvidos atentos

e palavra pronta

 

incómodo

certamente

incomodo 

nicole e ti miguel bitaolra


nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

voa o peixe
das mãos dos homens
irmãos nesta lide de mar
nesta safra rala de pão

as mãos
sempre as mãos
tudo decidem
depois de pensado o destino
feita a escolha

que importa a ucrânia
tão longe
a torreira
aqui já

o mar todos une
e o que já partiu
habita no que ainda por cá
em cada escama
de cada dia

falo dos amigos
e das teias que xávega tece

(companha do marco; torreira; 2010)

as tuas mãos


 

ahcravo_DSC_0963_mãos marco

será ainda tempo de

as mãos

nos dizerem mais de

ti

da tua arte

dos teus saberes

 

estarás sempre a tempo de

com as tuas mãos

construir o teu caminho

o caminho onde tu serás mais tu

por seres

 

escrevo-te

e é com mãos que o faço

as mesmas mãos

mas sem arte

sem jeito

para esses fazeres que me são estranhos

 

escrevo-te porque

quero que as tuas mãos

sejam somente tuas

aqui

onde as nossas se dão

viagens impossíveis ?


recriação da xávega com bois, torreira, setembro, 2013

recriação da xávega com bois, torreira, setembro, 2013

 

tudo tem o seu tempo

que o tempo tudo tem

 

viagens impossíveis não as há

queiram os homens navegar

ser o testemunho da memória

o tempo por dentro do tempo

para além do tempo

 

nada é o que foi

mas a imitação do ontem

é a construção hoje

de um amanhã

onde ter sido é orgulho

de um povo

 

viagens impossíveis

só as que não quisermos fazer

qual bela adormecida


ser solidário na ria

ser solidário na ria

não me perguntem

que força tem a água

digo-vos apenas

que mar e ria

são os elos mais fortes

que os unem

 

solidariedade feita de água

salgada

de vidas amargas

de horas muitas sobre outra

espécie de terra

 

são sempre um

quando muitos necessários são

 

(há quem pareça ter acordado

de um longo sono

e qual bela adormecida

despertado seja pelo beijo das eleições

pense que eles não pensam

não sabem, não vêem

 

 

há quem prometa fazer o que não fez

quando era tempo de o ter feito

 

há quem ainda ainda engane alguns

durante algum tempo

mas são cada vez menos

 

porque todos

são sempre um

quando muitos necessários são)

tempos cinzentos


mãe e filho: ana e alfredo amaral

mãe e filho: ana e alfredo amaral

 

tempos cinzentos estes
em que se espera que o pão
o de cada dia
chegue à mesa depois de um dia
de trabalho duro
ou sem trabalho
ou de mar ingrato

isto te ensinei meu filho
o caminho de areia
o caminho por onde o teu sorriso
o teu esforço para além do teu corpo
que do meu

tempos cinzentos estes
em que cada vez menos somos
quando mais nos disseram
que seríamos
saberão que somos
mais que números?

tempos cinzentos estes
por mais que nos prometam pomares
e sumo basto de laranja
ao pequeno almoço

 

(companha do marco; torreira; 2010)

zé caravela


 

 

 

zé caravela

zé caravela

abraçar o mar
com a força dos olhos

sentir o mar
nos braços
no peso das cordas
nos pés que se enterram na areia
ao peso de tudo

saber o mar
lê-lo com todos os sentidos
e saber que nada se sabe a não ser
que é o mar

o mesmo mar
com quem teimar
é destino diário
e não cântico efémero
sem saber notas
nem ler pautas
só para encantar

conhecer o mar?
pretensão de quem pensa
em tudo poder mandar

que tamanho tem o homem?


 

o arrais marco silva, torreira, 2010

o arrais marco silva, torreira, 2010

o do desafio que aceita?

o do sonho porque luta?
o do amor que o alimenta?

não há mar a mais
nem se precisam de homens do leme
há saberes e rotas
desejos e metas

há o Homem
que só o é porque há outros homens
saibam-no ou não
basta que ele o saiba
e seja mais que ele
seja todos
mesmo aqueles que não se sabem
para o saber a ele

o tamanho do homem?
boa pergunta