suspenso entre
o silêncio
e a palavra
adormeceu
foi então
que sonhou
o poema
nunca
o escreveu
dos caminhos andados
aprendi a dizer o que penso
a não querer estar de bem com todos
se comigo de bem não estiver
(fácil seria não ser como sou para maioria ser)
quem quer estar de bem com deus
e com diabo
vai para o inferno pela mão
de deus
(isso digo há muito)
dos caminhos andados
aprendi que a verdade calada
vale menos que a mentira apregoada
estar vivo
não é deixar estar
é ser aqui
de olhos abertos
ouvidos atentos
e palavra pronta
incómodo
certamente
incomodo
voa o peixe
das mãos dos homens
irmãos nesta lide de mar
nesta safra rala de pão
as mãos
sempre as mãos
tudo decidem
depois de pensado o destino
feita a escolha
que importa a ucrânia
tão longe
a torreira
aqui já
o mar todos une
e o que já partiu
habita no que ainda por cá
em cada escama
de cada dia
falo dos amigos
e das teias que xávega tece
(companha do marco; torreira; 2010)
será ainda tempo de
as mãos
nos dizerem mais de
ti
da tua arte
dos teus saberes
estarás sempre a tempo de
com as tuas mãos
construir o teu caminho
o caminho onde tu serás mais tu
por seres
escrevo-te
e é com mãos que o faço
as mesmas mãos
mas sem arte
sem jeito
para esses fazeres que me são estranhos
escrevo-te porque
quero que as tuas mãos
sejam somente tuas
aqui
onde as nossas se dão
tudo tem o seu tempo
que o tempo tudo tem
viagens impossíveis não as há
queiram os homens navegar
ser o testemunho da memória
o tempo por dentro do tempo
para além do tempo
nada é o que foi
mas a imitação do ontem
é a construção hoje
de um amanhã
onde ter sido é orgulho
de um povo
viagens impossíveis
só as que não quisermos fazer
não me perguntem
que força tem a água
digo-vos apenas
que mar e ria
são os elos mais fortes
que os unem
solidariedade feita de água
salgada
de vidas amargas
de horas muitas sobre outra
espécie de terra
são sempre um
quando muitos necessários são
(há quem pareça ter acordado
de um longo sono
e qual bela adormecida
despertado seja pelo beijo das eleições
pense que eles não pensam
não sabem, não vêem
há quem prometa fazer o que não fez
quando era tempo de o ter feito
há quem ainda ainda engane alguns
durante algum tempo
mas são cada vez menos
porque todos
são sempre um
quando muitos necessários são)
tempos cinzentos estes
em que se espera que o pão
o de cada dia
chegue à mesa depois de um dia
de trabalho duro
ou sem trabalho
ou de mar ingrato
isto te ensinei meu filho
o caminho de areia
o caminho por onde o teu sorriso
o teu esforço para além do teu corpo
que do meu
tempos cinzentos estes
em que cada vez menos somos
quando mais nos disseram
que seríamos
saberão que somos
mais que números?
tempos cinzentos estes
por mais que nos prometam pomares
e sumo basto de laranja
ao pequeno almoço
(companha do marco; torreira; 2010)
abraçar o mar
com a força dos olhos
sentir o mar
nos braços
no peso das cordas
nos pés que se enterram na areia
ao peso de tudo
saber o mar
lê-lo com todos os sentidos
e saber que nada se sabe a não ser
que é o mar
o mesmo mar
com quem teimar
é destino diário
e não cântico efémero
sem saber notas
nem ler pautas
só para encantar
conhecer o mar?
pretensão de quem pensa
em tudo poder mandar
o do desafio que aceita?
o do sonho porque luta?
o do amor que o alimenta?
não há mar a mais
nem se precisam de homens do leme
há saberes e rotas
desejos e metas
há o Homem
que só o é porque há outros homens
saibam-no ou não
basta que ele o saiba
e seja mais que ele
seja todos
mesmo aqueles que não se sabem
para o saber a ele
o tamanho do homem?
boa pergunta