é a vida, cravo


agostinho trabalhito

agostinho trabalhito

 

(para o meu amigo agostinho trabalhito)

 

 

sei que não me vais ler

a internet não faz parte

das artes de pesca

apesar de o mar já ter entrado

no meu computador

 

é a vida, cravo

quando dos teus irmãos

 

mas as palavras são só isso

uma forma de tentarmos dizer

o que nunca pode ser mais que sentimento

aproximação ao indizível

ínfimas

tão pouco

para tanto

 

quanto te aperta a palavra

abraço?

 

escrevo lágrimas de olhos secos

e tu

tu

sente-las correr pela face

 

é a vida, cravo

é a vida

é ….

 

liberdade ?


 

reflecte bem

reflecte bem

 

digo livre

e digo-te secreta a arma

secreta serena e nossa

sim nossa

 

tens dúvida?

então e os nossos interesses comuns

esqueces-te do que me deves

das nossas relações

do que é viveres aqui e eu

e os outros como eu mesmo se

 

secreta

sim

não digas a ninguém

que não votas em mim

muito menos não digas que és

ou assines por outro

 

olha que eu

posso ainda

poderei talvez

e tu

na dúvida

porque arriscas?

 

livre?

sim

mas não penses

que já de mim

 

secretamente livre

é assim

meditação à beira ria (1)


 

não

não quero saber nada do que sei

esquecer tudo o que aprendi

ser eu apenas

eu e

estar aqui

 

ignorar se o tempo é eterno

se choverá ou fará sol ainda

para além de

 

que tudo se reduza ao momento

mesmo que não se perpetue

mas seja o instante

e o que for

quando tiver de ser

seja

 

não há barcos a navegar na ria

também eu tenho marés

 

 

cebola


 

cebola, o redeiro da companha

cebola, o redeiro da companha

 

pega-se a alcunha à pele

perde-se o nome por entre

documentos que atestam

o ser ele ainda um outro

que é também aquele

porque é conhecido

na praia

 

ir até onde tudo começou

descobrir o porquê

a história por detrás

do ser esse o nome porque

és conhecido

porque te chamei desde sempre

é matéria para outra safra

 

digo cebola

e há um sorriso poisado numa bicicleta

que me responde

isso sei

 

(torrira; companha do marco; 2010)

 

hoje vi o tempo


 

 

hoje vi o tempo

sentado à mesa do café

anos sobre anos somados

e eu ali

quem sabe um dia

um outro tempo

por outros visto

 

parei de ler

impossível continuar

levantei-me

comigo o livro

as palavras sobre o papel

o prazer

 

caminhei pela beira ria

onde o tempo

de outro modo se lia

registei-o

 

quem sabe

num tempo outro

alguém

 

antónio serra (falecimento)


 

antónio serra (faleceu aos 59 anos em  20 de janeiro de 2013)

antónio serra
(faleceu aos 59 anos em 20 de janeiro de 2013)

 

 

o tempo
meu amigo
não pára
não espera
não se cansa

paramos nós
paraste tu
foste-te no tempo que fica
ficas neste momentos
resguardados
do tempo que passa

vejo-te ainda neste tempo
onde o teu rosto
permanece
e é memória de teres sido

estranha forma esta
de congelar o tempo
e os amigos
serem nele sempre
os mesmos
de quando foram

aqui
continuas a sorrir

um artista


 

ahcravo_DSC_1317_meditação buarcos

 

digo-te que ouviu

não os que chamou

mas os que o chamaram

 

digo-te que sabia

antes de ele me dizer

porque tinha ouvido

os que ele ouviu

só que eu não falo a linguagem deles

 

digo-te que ouviu

o homem não é surdo

sussurraram-lhe aos gritos:

credibilidade externa

eurogrupo

os bancos

ecofin

fmi

 

ouvi

desemprego

brutal carga fiscal

perda de poder de compra

miséria

desigualdade social

 

mas para ele isto são

palavras loucas

digo-te que sorriu

e fez de conta

que bem que ele sabe

um artista