meditação sobre o coelho


ahcravo_DSC_1146_pescador buarcos bw

 

ser quase nada

para quase tudo

e

quase tudo

para quase nada

 

o meu nome

são vários

e um só

 

pensionista

reformado

funcionário público

 

para mim tudo

é

transitório

em trânsito para definitivo

 

queria dizer-te

outras coisas deste país

mas os coelhos comeram as flores

 

um dia virá

e será breve

em que almoçaremos coelho

para ter o prazer de o vomitar

ainda


 

torreira, marina dos pescadores

torreira, marina dos pescadores

 

o cansaço

pendurado do corpo

no peso de ser ainda

o suporte desta coisa de pensar

 

lentos os movimentos

procuram ser mais do que

todo o tempo é leve

e pesa como séculos

 

um homem

corre contra

lento

quase não

 

nunca desistente

o resistir

mais forte que o corpo

 

cansam-me os olhos

de ver 

de mim


 

ahcravo_DSC_2156_gaivota ria

 

dos caminhos andados

aprendi a dizer o que penso

a não querer estar de bem com todos

se comigo de bem não estiver

(fácil seria não ser como sou para maioria ser)

 

quem quer estar de bem com deus

e com diabo

vai para o inferno pela mão

de deus

(isso digo há muito)

 

dos caminhos andados

aprendi que a verdade calada

vale menos que a mentira apregoada

 

estar vivo

não é deixar estar

é ser aqui

de olhos abertos

ouvidos atentos

e palavra pronta

 

incómodo

certamente

incomodo 

nicole e ti miguel bitaolra


nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

voa o peixe
das mãos dos homens
irmãos nesta lide de mar
nesta safra rala de pão

as mãos
sempre as mãos
tudo decidem
depois de pensado o destino
feita a escolha

que importa a ucrânia
tão longe
a torreira
aqui já

o mar todos une
e o que já partiu
habita no que ainda por cá
em cada escama
de cada dia

falo dos amigos
e das teias que xávega tece

(companha do marco; torreira; 2010)

as tuas mãos


 

ahcravo_DSC_0963_mãos marco

será ainda tempo de

as mãos

nos dizerem mais de

ti

da tua arte

dos teus saberes

 

estarás sempre a tempo de

com as tuas mãos

construir o teu caminho

o caminho onde tu serás mais tu

por seres

 

escrevo-te

e é com mãos que o faço

as mesmas mãos

mas sem arte

sem jeito

para esses fazeres que me são estranhos

 

escrevo-te porque

quero que as tuas mãos

sejam somente tuas

aqui

onde as nossas se dão