cai a noite


 

no vulgar descrever das coisas

cai a noite

 

uma guitarra celebra paredes

enquanto na lama da ria

uma mulher morde a sobrevivência

na apanha de amêijoas onde já ninguém

 

a miséria mais dura

convive lado a lado com a beleza da música

criando uma atmosfera de irrealidade insuportável

 

no vulgar descrever das coisas

cai a noite

quisera saber como acolhê-la

limito-me a ser


 

não te peço que entendas

sequer que gostes

daquilo que escrevo

 

como

se nem eu

por vezes?

 

sinto apenas

por isso escrevo

tenho de escrever

porquê?

porque tenho

 

não me questiones

sente apenas

ou não sintas

que sei eu de ti?

 

as palavras existem

para além de mim

sou nelas

um outro e o mesmo

 

não peço que me entendam

não peço nada

limito-me a ser

a minha gente


 

vêm de longe
de onde a fronteira entre luz
e sombra
era ainda o princípio de tudo
de ti de mim de nós
como se parados no tempo
são o próprio tempo
esperando ser mais tempo ainda

vê-los é entrar em casa
sem nunca ter saído
as manhãs são aqui infinitas
têm a dimensão da memória
aconchegada no regaço
da mãe-terra

vêm de longe
permanecerão para sempre
são a minha gente

 

para ver:

 

 

parceria jorge bacelar (vídeo e fotos)/ahcravo (palavras)

é irrevogável


nevoeiro ....

nevoeiro ….

 

 

é irrevogável

 

cristo desceu mesmo à terra

 

 

 

os vendilhões do templo

 

reunidos em plenário

 

depois de concluírem que nada

 

mais tinham para vender

 

decidiram

 

venderem-se a si próprios

 

e aos seus

 

(que não são deles mas como tal foram tratados)

 

 

 

é irrevogável

 

cristo desceu à terra

 

pelo menos a esta

 

onde tudo é possível

 

mesmo o inimaginável

 

 

 

em verdade vos digo

 

que a mesma anda por aí perdida

 

 

 

traz-me água


 

de saída

de saída

traz-me água

da mais pura que encontrares

para beber não será

que limpezas quero fazer

nesta terra (des)governada por estrangeirada gente

ao serviço de quem mais der

 

traz-me água

da mais suja que encontrares

para beber não será

baldes muitos encherei tantos quantas

cabeças houver onde os despejar

 

traz-me água

da mais pura que encontrares

que esta sim para beber será

sede que na garganta trago

seca de tanto gritar

 

traz-me água

não percas tempo a procurar

que a minha terra arde

e aos que o fogo atearam a todos quero afogar