é irrevogável


nevoeiro ....

nevoeiro ….

 

 

é irrevogável

 

cristo desceu mesmo à terra

 

 

 

os vendilhões do templo

 

reunidos em plenário

 

depois de concluírem que nada

 

mais tinham para vender

 

decidiram

 

venderem-se a si próprios

 

e aos seus

 

(que não são deles mas como tal foram tratados)

 

 

 

é irrevogável

 

cristo desceu à terra

 

pelo menos a esta

 

onde tudo é possível

 

mesmo o inimaginável

 

 

 

em verdade vos digo

 

que a mesma anda por aí perdida

 

 

 

a vida do pescador


colher as redes da solheira

 

 

não têm outro relógio

que as marés

outra companhia

que a da mulher

filho ou parente

 

“que esta arte

não dá para companheiros”

 

são os últimos

pescadores da ria

têm todas as idades

começam novos

orgulhosos da primeira bateira

e acabam quando já não

 

correm o mundo

em busca do pão que a ria

já não dá

encontra-los no bacalhau

no arrasto

em todo o mundo

da islândia à terra do fogo

são senhores do mar

 

é esta a gente

da laguna

daqui partem

e são mestres

aqui chegam

para serem esburgados

pelos intermediários

 

-isto não é um poema

é a vida do pescador-

 

 

(torreira)

o necas


necas

 

responde pelo nome de necas, é o cão do alberto trabalhito (trovão).

cão de pesca, cão de pescador, acompanha o dono em todas as suas saídas para ganhar na ria o pão, nem sempre o melhor.

é um animal compenetrado nas suas funções e segue com atenção, quase como se fiscalizando e controlando, todas as acções dos donos.

neste registo íamos largar redes solheiras.

(ria de aveiro; torreira)

alar e colher com o padas (IV)


a paula a safar as redes; 2010

é a paula, mulher do padas, não pára de safar as redes de algas, caranguejos e mesmo dos chocos ou linguados que venham emalhados.

o maia difícil de safar são os caranguejos, que com as tenazes se agarram às redes e como tempo não é coisa que sobre só há uma maneira de os fazer largar a rede, torcendo-os e arrancando-lhes as patas.

aqui termina esta série sobre a solheira. outros registos, pois muitos tenham, aparecerão de tempos a tempos.

(ria de aveiro_canal de ovar)

alar com padas (III)


padas e léo (2010)

 

pai e filho (padas e léo) vão alando a rede, espreitando a ver se, ainda na água já se distingue algum choco ou linguado.

por vezes são apanhados com enxalavar quando se prepara para fugir mesmo na beira do barco.

em tempo de fartura de choco, ele é vendido ao comprador com quem têm contrato a 3€ o kg, quando começa a escassear às vezes lá chega perto dos 5€. O comprador ainda desconta no peso, dependendo da quantidade, até 1kg para a água que pode vir no latão.

quanto ao linguado, acreditem que é verdade, nunca ultrapassa os 5€ o kg, mas raramente lá chega.

para que saibam que quem ganha não é o pescador e quem sofre no preço de tanta intermediação é o consumidor, que pensa que os pescadores têm de viver bem.

façam as contas ao que pagam, no mercador, no supermercado e nestas referência que vos deixo.

(ria de aveiro- canal de ovar)

colher com o joão padas (I)


padas e léo brandão; 2010
os últimos são os primeiros.

e é verdade, a primeira vez que fui à ria fotografar a arte da solheira, foi com o joão padas.

neste registo é o filho léo que vai ao motor a conduzir a bateira, o que espanta para quem embarca pela primeira vez é o saber onde a bóia. mas os pescadores, todos os pescadores, para além de um sentido apurado de orientação têm sempre referenciais em terra que os ajudam a localizar a primeira bóia.

os próximos registos testemunham como a família participa no alar das redes.

(ria de aveiro _ canal de ovar)

Comentarios

solheira_colher (3)


18 andares já foram

o aparelho da solheira, como já devo ter dito algures, é constituído por um determinado número de redes – andares – unidos entre si, até um máximo de 20 e que se estende por uma centenas largas de metros.

de oito em oito andares é lançada uma bóia para marcar a posição e servir assim de referência a outras bateiras ao mesmo tempo que nos dá o alinhamento coma bóia inicial.

os andares têm a correr no cimo um tralho de bóias e no fundo um tralho de chumbo – este de acordo com os modelos mais modernos é constituído por uma corda por dentro da qual corre o próprio chumbo.

assim a rede assenta no fundo e nela emalham os peixes – chocos, linguados e, por vezes sarguetas – dos quais os dois primeiros são os verdadeiros objectos de captura

(ria de aveiro – algures no canal de ovar -com o joão costeira)

safar as redes, coisa de família


patu, alexandra e filho

o patu, a mulher alexandra dias e o filho, toda a família se junta no safara das redes.

assim se aprende de pequeno que não é em caminhas de baloiço que se adormece, mas no terno balanço da ria que se inicia a caminhada.

(torreira- marina dos pescadores)