é dia de feira
ao mercado chegam
manhã cedo
com os frutos da terra
filhos outros
deste ter raízes fundas
no solo de onde vivem
vestem de negro
vestem sempre
que da terra são assim
os usos da idade
trazida pelo tempo
são daqui
sempre foram daqui
somaram-se
os dias
na safra do pão
foi-se
na conta o ano
amigos
chegaram e partiram
alegrias tristezas
perdas e ganhos
como se na china
de um animal
o ano
coelho
como se na china
o ano se fez
do salário
cada vez menos
gasparado que foi
no desgoverno
portugal
quem são?
este país
quem é?
passo a passo
passos
só tem um destino
saberemos dar-lho
ou não seremos
povo?
aqui sentei outrora sonhos
rasguei outras folhas com outra raiva
a memória enche este espaço
na ria os olhos gastam-se
iniciando uma viagem impossível
onde a saudade não tem lugar
o que fui
o seu tempo teve
o que sou
o mistério de estar de novo aqui
entrego ao sol
para que arda e morra e arda sempre
a laura e ele
os dois
são muitos
ainda
não digo
burros
dos que com
ele
sagradas vacas
estarão
comendo o pasto
por ele semeado
reis
que não os magos
enchem a barriga
não digo
inocentes
dos que com
ele
interrogo-me
porquê
mas sei
que sabem
o que querem
não sabendo o como
a laura e ele
isso sei
festejaram o natal
num manjar de laranjas
será que todos
os que com ele
também?
perdoai-lhes senhor
que o tempo não
talhar a pedra
erguer a casa
afeiçoar-se
das pequenas
coisas dentro
ser a casa
o mundo onde
acolher-se
dos agrestes dias
chuva, vento, frio
pedras outras
lugar onde
famílias, amigos
abraços
estar e ser
que fazer sem ela?
pedra a pedra
de novo
agora não a casa
o arremesso da raiva
aos senhores
da terra
onde erguida
e perdida
foi
assim
hoje, aqui
urge