não escrevo


enquanto escrevo

quantas crianças morrem

de fome?

quantos sofrem

tortura?

quantas mulheres são vítimas

de violência?

 

enquanto escrevo

dor

privação

riqueza

miséria extrema

sem abrigo

mansões de luxo

aqui

neste planeta onde

 

enquanto escrevo

onde estão as  mãos

estendidas

não para a agressão

mas para o amor?

 

enquanto escrevo

lembro-me:

hoje é dia mundial da poesia

e procuro-a ainda

fora do poema

que não escrevo

cresci contigo


 

a linguagem da ternura

a pureza dos afectos

a limpidez das mãos quando te abraçava

descobri-as contigo

 

crescemos os dois

lado a lado como irmãos

que ainda somos

ser teu pai

aconteceu

seres meu filho

foi sendo

 

hoje

a ternura é outra

a mesma que me une ao teu avô

ao meu pai

que também cresceu comigo

e foi também teu

porque nosso

 

hoje

no dia que é meu

não me dês nada

vem apenas recordar o que fomos

e ouvir de novo as histórias

que para ti inventei

ti cravo_ memória de um verão


luminosos os dias
passaram

na memória desenhados
os contornos de um tempo cheio

entre mar e ria repartido
diversas as artes, os homens, as histórias

nas companhas com os homens
que dominam o medo
galgando o mar com gritos de:
bota! bota! bota!

na ria com os serenos
pescadores das bateiras
sobrevivendo até à próxima partida
para o arrasto, para o bacalhau
em busca do sustento que a ria nega

o zé rito
está a fazer um moliceiro novo
para a regata de julho
e o barco é de todos
ponto de reunião e união
“já foste ao barco hoje?”

duas miniaturas magníficas
feitas pelo ti henrique
enriquecem a minha galeria:
um moliceiro e uma caçadeira
temos projectos para outros

um jovem pescador do mar
quando me fui despedir
pergunta:

“oh ti cravo!
para onde é que vai?”

(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)