a beleza
é intensa
se por dentro
isso aprenderás
apenas
depois de
(torreira)
enquanto escrevo
quantas crianças morrem
de fome?
quantos sofrem
tortura?
quantas mulheres são vítimas
de violência?
enquanto escrevo
dor
privação
riqueza
miséria extrema
sem abrigo
mansões de luxo
aqui
neste planeta onde
enquanto escrevo
onde estão as mãos
estendidas
não para a agressão
mas para o amor?
enquanto escrevo
lembro-me:
hoje é dia mundial da poesia
e procuro-a ainda
fora do poema
que não escrevo
vai o peixe à mão?
voou dela?
a magia do congelar
do momento
recria realidades
provoca leituras
não altera o que foi
preserva-o
entrega-o a
é teu e tu o lerás
como
as mãos são
ainda
o grande fascínio
do homem
habilis somos
porque mãos
e como diria galileu:
e pur si muove
(torreira; companha do murta)
a linguagem da ternura
a pureza dos afectos
a limpidez das mãos quando te abraçava
descobri-as contigo
crescemos os dois
lado a lado como irmãos
que ainda somos
ser teu pai
aconteceu
seres meu filho
foi sendo
hoje
a ternura é outra
a mesma que me une ao teu avô
ao meu pai
que também cresceu comigo
e foi também teu
porque nosso
hoje
no dia que é meu
não me dês nada
vem apenas recordar o que fomos
e ouvir de novo as histórias
que para ti inventei
luminosos os dias
passaram
na memória desenhados
os contornos de um tempo cheio
entre mar e ria repartido
diversas as artes, os homens, as histórias
nas companhas com os homens
que dominam o medo
galgando o mar com gritos de:
bota! bota! bota!
na ria com os serenos
pescadores das bateiras
sobrevivendo até à próxima partida
para o arrasto, para o bacalhau
em busca do sustento que a ria nega
o zé rito
está a fazer um moliceiro novo
para a regata de julho
e o barco é de todos
ponto de reunião e união
“já foste ao barco hoje?”
duas miniaturas magníficas
feitas pelo ti henrique
enriquecem a minha galeria:
um moliceiro e uma caçadeira
temos projectos para outros
um jovem pescador do mar
quando me fui despedir
pergunta:
“oh ti cravo!
para onde é que vai?”
(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)