a minha ria


é esta a minha ria
a da sobrevivência
das artes
aqui
homem e mulher
são camaradas
em tudo
iguais

o pão que comem
colheram-no
ambos
da mesma fonte
 
é esta a minha ria
a da resistência
da solidariedade
a que nem todos vêem
a que alguns mataram conscientemente

mas que é
a mais bela ria
do mundo

(murtosa; cais do chegado; carregar caranguejo)

do poema e de ti


do fogo

desenha uma letra
fá-lo com ternura
as letras
são sensíveis
muito

uma a uma vai-as desenhando
e juntando
como se fossem esqueleto
de coisa viva
as palavras são

há música
quando lentamente
soletras as palavras
a que as letras deram corpo
vês têm vida as letras

ouves-te no que lês?
és tu por dentro delas?
cada vez mais vivas
as palavras sorriem-te
como ninguém o sabe

estás mais leve
disseste-te
temes porém
o não teres sido ainda
é esse o encanto
da vida

(buarcos e era natal)

as mãos ainda e sempre


falo agora de outra escrita
de outras letras
de outras linhas
de outro poema
da vida

ainda e sempre
as mãos
serão destino dos olhos
construtoras de caminhos
e carícias
fábricas de pão
fêmeas
 
rudes e ásperas
ternas e solidárias
as mãos
rasgadas pelos sulcos
da ria
do mar
da terra
 
são ainda mãos
mães de pai de mãe
de dar
as mãos
 
olho-as
guardo-as no fundo de mim
para tas ofertar
como se oiro
como se sol

as mãos

(torreira)

barco de mar


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sábias mãos
do mar conhecedoras
foram concebendo o barco
a pedido
que é o mar que pede o barco
que o homem pede ao mestre

de mestre a aprendiz
de geração em geração
do diálogo entre mar e homem
homem e mar
o barco cresceu e diminuiu
transformou e se faz
 
engenharia esta de mestrança
onde o cálculo não de régua
mas de pau de pontos
e as peças de moldes herdados
 
que o mar pede o barco
que o homem o sente e o ajusta
que o diálogo o fez
 
barco de mar
do mar da nossa costa ocidental
da pancada
da onda
da mão

(torreira, 2009)

há mulheres aqui


ti miguel bitaolra e rui rapina
dão-se as mãos
dão-se as gerações
no amor ao mar
cresce-se com ele
dentro

atado aos pulsos
marcado nos rostos
salgando os pés
gatinhando na areia
 
no mar se fazem homens
no barco a iniciação das ondas
baptismo a pedido
há mulheres aqui
há mulheres aqui

no esticar da corda
no esforço conjunto
há mulheres aqui
onde a terra acaba
mas os homens não
 
há mulheres aqui

(torreira, 2007)

ai a mãezinha!


mulher da praia da leirosa
o retrato
é uma arte de encontro
com o retratado
que por vezes
se torna numa outra arte
a do encontro deste
com os seus

olhou-se
e não se viu
viu a mãe
e disse-o à irmã
 
“ai a nossa mãezinha!”

crescemos para os nossos
para sermos eles ainda
enquanto aqui
até com eles nos confundirmos
e os revermos quando
nos vemos
 
o retrato
não rouba a alma
como algumas culturas cultivam
o retrato
traz as almas de volta

é essa a aventura
de pedir:
posso fotografá-la?

(praia da leirosa; foto de 2008, reencontro em 2012)

ganhar o pão


ti alfredo fareja (falecido)

 

chega o saco à praia

com ele a esperança

de um bom lanço

farto de carapau

paga de tantas horas

de suor duas vezes salgado

 

chega o saco à praia

mas a mais das vezes

só rede

que peixe

as traineiras de noite

tomaram de assalto

invasoras da costa onde

outrora piratas

também

 

é este o momento

em que o mar

pagará ou não

a quem no mar tentou

mais uma vez

ganhar o pão

 

(torreira; 2007)

 

 

a vida do pescador


colher as redes da solheira
não têm outro relógio
que as marés
outra companhia
que a da mulher
filho ou parente

que esta arte
não dá para companheiros

são os últimos
pescadores da ria
têm todas as idades
começam novos
orgulhosos da primeira bateira
e acabam quando já não

correm o mundo
em busca do pão que a ria
já não dá
encontra-los no bacalhau
no arrasto
em todo o mundo
da islândia à terra do fogo
são senhores do mar

é esta a gente
da laguna
daqui partem
e são mestres
aqui chegam
para serem esburgados
pelos intermediários
 
-isto não é um poema
é a vida do pescador-

(torreira)

ombros de arrais


(torreira; 2007) – zé pato+arrais zé murta

verga-se o bordão
ao peso do rolo
não se vergam os homens
que mais são

de areia se faz
o caminho do mar
a companha é isto
o sermos todos o mesmo
e sabermos
quando um mesmo é mais
é esse o arrais

não é mais só por ser
é mais porque em tudo é
da voz às mãos
dos olhos ao corpo
ele é a companha
 
madrugada cedo
a quotidiana leitura do mar
o saber se
há ou não mar de largar
tarefa sua e sofrida
 
ombros mais largos
não
apenas ombros
de arrais