
todo o tempo tem o seu tempo até o ser chuva de sol tem o seu
(buarcos)
um dia ainda
vou escrever um poema
a publicar
nesse dia duvidem
que seja eu
outro por mim
certamente o escreveu
que a mim me basta
o espaço para que as palavras voem
e não se estatelem em folhas
de tiragem reduzida
de um autor desconhecido
mas
publicado
que a expensas próprias
vai ajudando a subsistência de editoras
de futuros ignorados
um dia vou escrever
um poema impublicável
mais um
estou muito longe de tudo muito perto de mim encho-me de mar e não há palavras que digam sequer parte do que sinto quem sou é outro sendo o mesmo que fui mas muito maior que eu lavei todo o meu corpo no mar limpei-me das impurezas urbanas reencontrei o vernáculo dos homens que não viram as costas às ondas pesco neles o pão para estas palavras poucas e ofereço-vos do muito que sou agora o tanto que me ofertaram estou muito longe de tudo mais eu que nunca
(torreira; 14 de junho de 2012)
a nossa gente
come da terra os frutos
mais amargos
regados a suor
caminha sobre as águas
como se terra fosse
a nossa gente
partiu para onde onde não queria
sempre em busca
do que na terra não havia
avaro o mar negava
o que também a ria
falo do pão
a nossa gente
é anfíbia e sobrevive
no segredo dos dias
por onde passam
raros
raios de sol
trazidos de outros países
a nossa gente
cresceu fora da terra mãe
onde vem morrer
as saudades de aqui
não ter vivido
a nossa gente
é nossa
mesmo se esquecida
é nossa
mesmo se maltratada
é nossa
a nossa gente
é gente
recuso outro tempo que não o meu sou o agora e o aqui na inquietação de querer melhor sou a pedra no vidro o prego no sapato não mudo de passeio mudam não ponho máscaras sou-me irritantemente por vezes sei e nunca é demais não procuro encontro reencontro vomito quisera ser o grito
talvez de palavras se faça o discurso mas com actos se concretiza assim se faz o homem tragam-me um diz-me que terra é esta onde já poucos morrem porque menos nascem? terra de partida terra em que não há pobres dizem porque misérias muitas os moliceiros esguios elegantes fermosos os mais belos barcos do mundo não eram barcos eram casa ave pão na mesa que povo é este que tem de buscar as suas memórias em arquivos de museus que não os seus que povo é este que tão fraca gente à frente tem vou ainda ao meu encontro no desencontro de estar aqui
(torreira e dois moliceiros que já não existem – nem o dono)

o artista traça meticulosamente as linhas que nos trazem o rosto a memória das palavras simples das mensagens complexas dir-te-ei um livro vogando sobre águas mansas levando cultura na proa pandas as velas cheias de poemas o moliceiro é pessoa
(o pintor josé manuel oliveira a pintar um dos painéis da proa do moliceiro “pardilhoense”)
hoje não há governo
nem oposição
empregado ou patrão
hoje há selecção
hoje não há desempregados
nem mesas sem pão
hoje é dia de sim
amanhã pode ser dia de não
mas hoje
hoje há selecção
um carro parou de repente
impedindo a circulação
aí sim
houve discussão
tudo porque
hoje há selecção
por debaixo da caixa
da televisão
uma voz sibilina canta baixinho
“lá vamos cantando e rindo”
ainda há quem se lembre da canção?
pois é
é bom que se lembre
porque em país de futebóis muitos
de défices, de desemprego, de fome
de corrupção
hoje tudo se esquece
porque
hoje há selecção

o peso das raízes prende a nuvem ao sonho gota a gota sobre os dias cai o ser aqui de novo reencontro nas redes as mãos safando limos caranguejos bastos a vida depois do grito negro do choco na face os homens são-me agora mais próximos deito-me ao comprido da ria braços abertos num abraço retido no fundo de mim ergo-me por dentro cresço árvore onde água
(o peso da solheira; torreira)

visto-me de palavras de palavras ando que de palavras me fui fazendo sem saber se muitas se poucas apenas pelo prazer de para o dia a dia camisa garcia márquez calças eugénio de andrade sapatos sophia de mello breyner um bruto carro antónio lobo antunes para a praia polos marca vinicius calções de banho drummond chapéu faulkner toalha miguel angel asturias de inverno impermeável proust meias prévert e você manuel bandeira junto com zé gomes aquecem os meus dias óculos esses não dispenso para ler as marcas da roupa que visto então só mesmo se forem fernando pessoa
(coimbra; baixinha)