palavras


 

 

orvalhadas

palavras

entre os teus dedos

(sente-as)

 

uma brisa

levá-las-á

para o mar

(deixa-as)

 

sobre as ondas

poisarão

imaculadas

em bando

(olha-as)

 

será este

o poema

que nunca escreverás

(lê-o)

são rosas mãezinha


são rosas

mãezinha

as nossas

ainda em botão

vermelhas

como tu gostas

como nós gostamos

 

sempre em botão

nós para ti

com alguns espinhos

que tu amorosamente

perdoas

 

são rosas

mãezinha

os teus filhos

os teus netos

as tuas bisnetas

são rosas mãezinha

 

não de estufa

como as rosas

que todos os anos

sempre que é data

em ramo florido

te ofereço

 

são tu

para além de ti

as tuas rosas

mãezinha

regresso ao além-tejo (sonho)


 

saudades do sul

das searas

e das mãos que trabalham

o barro

 

saudades do sul

e do roxo das uvas

brancas nos cachos

 

saudades do sul

e do pão

do sabor do chouriço

pendurado na fatia grande

do pão para todos

 

saudades do sul

em chegando ao barreiro…

que agora fica não atrás

mas à frente

porque

ao contrário da canção

agora o tejo vai ser atravessado

e o além-tejo mais próximo

 

saudades do sul

que acabam

matilde


 

inventa palavras

sonhos

caminhos

nunca sonâmbulos

correm rios

vivos sob varandas

onde uma terra

chora

uma sereia em jerusalém

 

não há bermas

nas estradas por onde anda

canta lendas

de um povo

uma magia de aromas

quentes

onde denúncias

se pressentem

 

confessa-se doente

sofre de não saber

dizer não

 

é de causas

e causa engulhos quando

 

escreve

mas sobretudo ama

 

a mulher chama-se

matilde