postais da ria (114)


terror

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(revoltam-me as vítimas de todas as raças
cubro-me com as bandeiras de todos os países
porque em tudo sangue)

 
invadem-te a casa
matam-te os filhos
com o que lhes vendeste
para que aos seus
não aos teus

invadem-te a casa
matam-te os filhos
com o que lhes ensinaste
que aos seus
nunca aos teus

o terror é a guerra à tua porta

o treino foi intenso
o material bem pago
as exportações aumentaram
os indicadores nunca tão bons
os ofchores sorridentes
nunca tanto com tão pouco

em luxuosas salas climatizadas
definem-se estratégias
estudam-se novos negócios
planeiam-se investimentos
procuram-se fornecedores
estrutura-se a rede de distribuição
definem-se percentagens a ofertar
aos agentes dos compradores

o terror é a guerra à tua porta
e isso
também é economia estúpido

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(torreira, uma bateira adormecida)

postais da ria (111)


hoje é o dia

o espelho da ria

o espelho da ria

um dia
verás o que nunca viste
um dia
o inesperável acontecerá

então
dirás não o que sabes que é
mas o que gostarias que fosse
com isso tentarás confundir
o que queres com o que tens

então
quererás que a tua mentira
vença a evidência dos factos
seja a verdade que não existe
para continuares a ser o que já não

seres o que não és foi coisa
que te levou à ilusão de tentares ser
o que sendo nunca serias

hoje é o dia de ouvires
que já te ouvimos quanto baste

uma ria de homens e barcos, a minha ria

uma ria de homens e barcos, a minha ria

(torreira; regata das bateiras; s. paio; 2012)