“Acredita nos teus olhos com
com a mesma força com que crês
naquilo que os teus olhos
veem.”
José Luís Peixoto in “Em teu ventre”
(ria de aveiro; regata da ria; 2013)
“Sim, o teu olhar também
é um material,
a erosão ou as mãos de ou-
tros poderão talhá-lo de
acordo com o que sabem
e o que não sabem, o que
esperam e o que são capazes
de imaginar”
José Luís Peixoto, in “Em teu ventre”
(ria de aveiro; torreira; cabritar)
amputado
mesmo sem te ver sinto-te
a tua ausência dói-me
sei-te demasiado
não ando por onde andámos
para não te dar o braço
o que me cortaram
escrevo-me-te para sermos
(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2012)
o meu amigo ti zé costeira
nos últimos anos
caminhava pesado até à bateira
a cana de pesca bengala
remava atá ao meio da ria
voltava com algum peixe para o almoço
os dias repetiam-se e ele dentro deles
dentro do silêncio dentro da bateira
na ria
primeiro arrumou a bateira
cobriu-a com plástico
depois morreu a mulher
o plástico começou a rasgar-se
e ele
falei-lhe quando já não era
mostrou-me a casa os troféus
contou-se por momentos
viveu
não sei como estará numa casa
entre quatro paredes auxiliares
refeições certas medicação a horas
um sofá a cama o silêncio os outros
onde a ria?
eu vejo-o sempre lá no meio
a dar vida às águas mortas
(torreira; 2015)