voa com os barcos
constrói o silêncio
como as aves o ninho
depois
voa com os barcos
(torreira; porto de abrigo)
a palavra que não quero
espero a palavra
por dentro das palavras
o sorriso demora a regressar
o tempo é nublado muito
não te perdoo o deserto
nem a lama que semeaste
a imagem só é a mesma
para os mesmos olhos
espero a palavra
por dentro das palavras
e não a quero
(ria de aveiro; torreira)
eu só termino em mim
os primeiros passos
não os últimos
as primeiras palavras
a palavra o nome
o herdado
vi o que vias e procurava
outros olhares
mas era sempre o teu
o olhar recto
sou porque foste e me deste
serei porque assim te vi ser
não pelo que me dizes hoje
queria continuar a ouvir-te
mas eu só termino em mim
(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)
vive e sonha
nada é tão certo
como a incerteza
sê tu no instante
em que a ave é barco
e os rios correm serenos
por entre margens largas
escuta o rumor do vento
a beleza dos flamingos
vive e sonha
(ria de aveiro; esteiros do bunheiro)
o
o lixo debaixo do tapete
lê tudo ao contrário
as horas da beleza
não são as únicas
horas da realidade
procura os homens
pergunta-lhes o como
quando e para quê
são eles o teu relógio
procura-os nas horas más
esconderam o lixo
por debaixo do tapete
na ilusão de terem limpo a casa
não sejam os teus olhos
tapete novo em chão gasto
dou-te a carne dos dias
para que sintas na boca o sangue
dos que os habitam
reparte-a
(torreira; cais do guedes; verão, 2015)