postais da ria (259)


vêm devagar

vêm devagar os amigos
chegam pela mão da memória
por vezes tarde demais

partem depressa os amigos
olho-os como se ainda
mas é tarde muito tarde

sei que partiram alguns
cada dia mais
enquanto eu vou resistindo

enquanto passear pelos dias
levo-os pela mão
e deixo-os convosco à conversa

nada mais posso fazer

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o falecido manuel vieira (valas)

(murtosa; regata do bico; 2007)

 

crónicas da xávega (256)


a mais ninguém

cinzentos
os dias sucedem-se
monótonos diversos
suceder-se-ão

o tempo
esse assassino impune
a cada dia me leva amigos
levar-me-á

o que o tempo
me não roubou ainda
homens levaram

perdoo ao tempo
é da sua natureza
a mais ninguém

a mais ninguém

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(torreira; a escolha; 2009)

 

crónicas da xávega (194)


carta ao meu amigo miguel bitaolra

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o tempo correu depressa
ti miguel
você deixou o mar
o corpo já não permite
a dureza da faina

lembro-me de si
e do alfredo fareja
das alegrias
das brincadeiras
do mar ali e nós

o ti alfredo já partiu
já partiram muitos
a areia é ainda a mesma
os barcos ainda vão ao mar
ainda há companhas na torreira

apeteceu-me escrever-lhe
oito anos depois
de lhe ter tirado esta foto

apeteceu-me a memória do que foi
quando não sei o que será

apeteceu-me agora
e agora foi mais forte

abraço ti miguel

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(torreira; 2009)

crónicas da xávega (185)


o meu amigo ricardo

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no reçoeiro, o esforço quando a manga chega e é urgente trazer o saco para terra, a máquina não basta.o homem sempre

14 anos de idade, 11 anos depois de o ter conhecido.

o homem e a máquina, a máquina do homem, do tempo, do esforço, do crescer assim rente ao mar, com o mar nos olhos a invadir o sangue.

o puto que já foi, no homem que é puto ainda, para mim

(torreira; 2016)

no reçoeiro, o esforço quando a manga chega e é urgente trazer o saco para terra, a máquina não chega.

2 de agosto de 2016


bem hajas antónio brandão

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nuno cunha e o mestre zé rito fixam a bica do moliceiro

há datas que não são para esquecer, esta é uma delas.

o nuno cunha (setenove) e o mestre zé rito, fixavam a bica da proa do moliceiro. a construção progredia.

eram muitos, como hábito, os que assistiam àquilo a que chamei “celebração da ria”, entre eles alguns dos irmãos “brandão”.

o antónio brandão veio, de repente, ter comigo e disse-me:

– sr. cravo, tenho lá em casa uma caixa que a drª andreia me deu, com desenhos de moliceiros, e que lhe deve interessar.

pegou na bicicleta e, pouco tempo depois, trazia na mão uma caixa branca, de arquivo, que me deu para as mãos.

abri e vi que era a tese de licenciatura, de 1999, da minha amiga andreia leite, falecida aos falecida em 2008, aos 31 anos, de leucemia, e que muito me ajudou nas pesquisas sobre o naufrágio do nathalie. o documento tinha dado origem à tese de mestrado que viria a defender na universidade portucalense.

fiquei sem palavras e só fui capaz de dizer ao antónio:

– guarda-o é uma oferta que deve permanecer na família.

– sr. cravo, dou-lho como se o desse ao meu pai.

os olhos falaram pelos dois, não fui capaz de dizer que não e limitei-me às palavras mais simples:

– nunca me hei-de esquecer deste dia, antónio.

– e eu nunca me hei-de esquecer de si, sr. cravo.

escrevo o que se passou e volto a sentir tudo……..

a memória aqui fica e o testemunho de uma amizade que junta várias.

a construção do moliceiro proporcionou-me um dos momentos mais sentidos em toda a minha passagem pela torreira.

bem hajas antónio brandão

(torreira; 2 de agosto de 2016)