crónicas da xávega (212)


destino de pescador

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

não têm nome
são pescadores
só o mar a areia e o norte
os conhecem

quando por feitos
direito tiveram
a nome e o publicaram
a terra esqueceu-os

partem sempre um dia
humanos que são
perdem-se no nevoeiro
que sobre eles lançam

aqui estão todos
os que foram
os que ainda são
os de amanhã

não têm nome
não sei se o terão

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

(torreira; 2016)

 

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postais da ria (167)


unem-se na partida

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o nelson arruma as redes, vai para o mar

arrumar as redes
é arrumar os dias

é tempo de partir
de ir ganhar a vida
que na ria se gasta

o arrasto o bacalhau
a pesca do alto

na ria não se faz vida
a desunião desfaz a força

unem-se na partida

0 ahcravo_DSC_1901 nelson acabou

só parte quem ficando não faz vida

(torreira; 2016)

 

crónicas da xávega (138)


ti antónio neto

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como sempre, calado a olhar para o longe

escrevo mar memória
cansaço vida morte
conto o tempo
os dias onde já não

sei ti antónio
que já partiu

tarefa pesada esta
de carregar certos dias
como se menos um

recordo então os rostos
dos que partiram
vejo-os sorrir de novo
reinvento o tempo
um tempo de sol e mar
o nosso tempo

revejo-o  ti antónio

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ao mar ao fundo continuará sempre

(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (130)


o meu amigo carlos padeiro

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começa-se cedo aqui

aulas acabadas
abertas portas e janelas
a ria de novo

aqui onde
de água o chão
e infinito o tecto
os tempos são
de marés e sol

os olhos prendem-se
nas redes
onde peixe mais tarde

não é este o lugar
da palavra
por isso do carlos

escuto o silêncio

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férias da escola é na ria

(torrreira; porto de abrigo; 2010)