os moliceiros têm vela (417)


1 de agosto de 2020, regata do emigrante, um olhar
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o bruno daniel e o mestre zé rito

 
não foi ao domingo, foi no sábado, também não foi o percurso habitual, mas foi no bico. não estamos num ano comum, esperemos que não se prolongue.
 
uma regata de moliceiros é sempre um espectáculo e esta foi um grande espectáculo.
mas dentro dos moliceiros vão homens, homens que compraram moliceiros, homens que os fizeram.
 
este ano, em que perdemos um moliceiro para os canais de aveiro, ganhámos mais um “moliceiro” , o bruno daniel marçal dias que comprou o moliceiro do mestre zé rito. um jovem. mais um.
 
e é de jovens que quero falar, não os contei, mas em quase todos os moliceiros havia tripulantes jovens a mostrar ao resistente, ti zé rebeço, que os moliceiros continuam, haja vontade e apoio de quem decide – e este ano houve.
 
espero em 2021, voltar a ver a frota de moliceiros reposta – verdade, mestre zé rito?
 
parabéns bruno daniel – esta já é a tua segunda regata – aprendeste, como alguns mais velhos ainda não aprenderam, que não se pode ganhar sempre, que as regatas são uma festa, que há erros mas que não são propositados, que nas festas só pode haver festa, que o importante é participar e fazer da ria aquilo que ela merece: um lago de cisnes.
 
(torreira; 1 de agosto de 2020)

os moliceiros têm vela (407)


pergunta ao mestre
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torreira; mestre zé rito; 2018

 
foram aprendizes nos estaleiros
dos mestres serviram
tudo fizeram que mandado fosse
 
não lêem os sofisticados desenhos
que vieram mais tarde
contar dos barcos a estrutura o ser
 
usam moldes e paus de pontos
saberes herdados na aprendizagem
não sabes o que são
pergunta ao mestre
 
poucos restam das antigas escolas
diria que uma mão de dedos cheia
basta para dizer quantos
 
por isso cada moliceiro fala do mestre
em silêncio
ou no símbolo que no leme o significa
 
não sabes o que é calafetar
pergunta ao mestre
os moliceiros têm vela (352)

os moliceiros têm vela (352)


salve mestre

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mestre antónio esteves e a sua obra: o “presidente”

esqueçam os planos
traçados a rigor de esquadro
medidas milimétricas
sofisticação de computador
 
o mestre tem outra arte
outras medidas outras regras
 
única e irrepetível
a obra
sempre a primeira
sempre a última
 
a obra do mestre
é a SUA OBRA
 
salve mestre
 
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mestre antónio esteves e a sua obra: o “presidente”

(murtosa; praia do bico; 31 de março; 2019)
 

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0 ahcravo_DSC_4343 moliceiro ze rito
nasceu em 1956, filho de pescadores e caçadores que se tornaram moliceiros, zé rito “nasceu no moliço”, fez-se construtor naval e é pescador.
 
de família originária da murtosa é na torreira que vive e se torna o primeiro construtor naval da terra.
 
homem da ria e dos moliceiros sempre participou nas regatas de moliceiros, bateiras e chinchorros. tirando alguns azares ficou sempre nas primeiras posições em todas as regatas, muitas delas no primeiro lugar.
 
o mais a conversa gravada o diz.

à conversa com mestre antónio esteves (pardaleiro)


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o mestre a trabalhar com serra tradiconal

em julho de 2018, no estaleiro junto à ribeira das bulhas , em pardilhó, conversei com o mestre antónio esteves (pardaleiro), primo do mestre murtoseiro, falecido em janeiro de 2019, joaquim raimundo.
aos 78 anos continua a construir e reparar os barcos que lhe encomendam. as perguntas foram à medida do meu saber e poderão ter ficado aquém do que o mestre merecia. mas, como diz o povo, quem dá o que tem ….
foi aprendiz do mestre henrique lavoura de quem “herdou” o pau de pontos, que já vinha do mestre joaquim rato – da bestida para pardilhó a caminhada da tradição.
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à data da conversa nenhum de nós imaginava que mais um moliceiro lhe iria sair das mãos, mas há sempre – até quando ? – surpresas na ria. no momento em que esta conversa é publicada está em fase de conclusão mais um moliceiro.
lá estarei no bota-abaixo
o mestre antónio esteves (pardaleiro) é o mais antigo mestre construtor naval em actividade e foi, será sempre, um prazer ouvi-lo
da conversa fica o vídeo possível

os moliceiros têm vela (243)


notas de um retirante

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para que conste

em 1999 o mestre zé rito, que tinha o estaleiro ao lado de casa, construiu, a céu aberto num terreno em frente ao estaleiro, o moliceiro “zé rito”.

em 2016, o mestre zé rito construiu, a céu aberto num terreno ao lado do “museu estaleiro do monte branco”, o moliceiro “um sonho”.

evolução? continuidade? o que mudou para que tudo continuasse na mesma.

aqui fica o convite para visitarem o museu estaleiro e aprenderem vendo.

(construção do moliceiro “um sonho”; 2016)

construção de um moliceiro (8)


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21 de agosto

hoje acabou-se o fecho dos costados do moliceiro.

neste registo o ti alfredo do táxi – porque foi dono do primeiro táxi da torreira, antes de emigrar – segura a tábua que o mestre zé rito aplaina e irá ser colocada na parte inferior da proa, a estibordo.

para fechar totalmente o barco, ficam só por colocar as tábuas de fecho do fundo.

amanhã começa o trabalho de decoração do barco, a cargo do pintor zé oliveira que, há cerca de 25 anos, decora moliceiros e para os quais vai inventando os temas que tão bem caracterizam os painéis. vamos ver o que sai desta vez.

quanto à colocação da tábua, depois de afeiçoada, não fiz qualquer registo porque…. fui membro da equipa do turno que a aguentou enquanto o mestre a fixava.

(torreira; 21 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (6)


19 de agosto

hoje o mestre zé rito, andou entre o acabamento da proa e o leme e pequenas tarefas de aperfeiçoamento. do varrer ao polir, de tudo se fez um pouco e os amigos ajudavam onde era preciso a cada momento.

momentos houve, como todos os dias, em que o mestre trabalhava e conversava com os amigos, dizia piadas e continuava. a obra é um acto de contentamento e não o resultado de um sacrifício.

emigrantes, reformados, pescadores, turistas …. muitos foram os que por ali passaram, os que ali ficam e convivem.

dos muitos momentos vividos ao longo do dia, fica o registo último que fiz antes de os deixar: o colocar do último “cunho” do castelo da proa, depois do “bertente”.

como já escrevi, este não é um diário técnico, nem o pretende ser, é isso sim, uma memória dos dias vividos junto à ria à mesa de um moliceiro em construção.

como disse o setenove, em torno ” de mais um filho da ria”.

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o mestre zé rito coloca o último “cunho”

(torreira, 19 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (5)


18 de agosto

hoje o mestre zé rito continuou a trabalhar em pequenos, mas importantes detalhes da construção, nomeadamente a quase conclusão da bica da proa e ponteiras.

registei, pela sua valia humana de solidariedade e amor, o momento em que todos os que foram precisos ajudaram a colocar a tábua de baixo, do costado de bombordo.

tirando uma pequena lacuna na ré, o bombordo ficou fechado – até à hora em que saí do estaleiro.

talvez amanhã quando lá chegar já esteja fechado. quando saí ontem faltava colocar a tábua de baixo do costado de estibordo à ré, hoje de manhã já estava no sítio.

o barco vai-se fazendo de acordo com o saber do mestre, com os métodos herdados na sua aprendizagem e aperfeiçoados no seu fazer diário. de acordo com o seu tempo.

não sou técnico, sou o que olha e vê os homens e um barco que pulsa dentro deles e os faz rir e conviver, como se em torno de uma mesa farta.

o tempo aperta, o mestre não descansa, os amigos esperam, plateia atenta, que um pedido surja e logo é satisfeito.

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construção de um moliceiro (4)


17 de agosto

hoje começou o fecho do barco.

o mestre zé rito afeiçoou a segunda tábua de costado de bombordo e procedeu-se à sua fixação.

do fazer de cavilhas de madeira, que se vêem ao longo da tábua, até aos ângulos de corte da tábua e ao molde para o fazer, muitas foram as pequenas tarefas e alguns os conceitos novos que aprendi.

para a colocação da tábua e ajuda à sua fixação de novo, como sempre, apareceram amigos prontos a ajudar.

ao fixar neste registo o barco, já na sua forma final, e um homem de costas – que eu sei que é o avelino – quero simbolizar TODOS os que, de algum modo, têm estado presentes durante a construção do moliceiro e, com todo o empenho possível, têm dado o seu contributo para a construção.

a cada dia que passa, mais vejo esta construção como a GRANDE CELEBRAÇÃO COLECTIVA E ESPONTÂNEA DA RIA.

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(torreira; 17 de agosto de 2016)