os moliceiros têm vela (407)


pergunta ao mestre
0 ahcravo_DSC0481

torreira; mestre zé rito; 2018

 
foram aprendizes nos estaleiros
dos mestres serviram
tudo fizeram que mandado fosse
 
não lêem os sofisticados desenhos
que vieram mais tarde
contar dos barcos a estrutura o ser
 
usam moldes e paus de pontos
saberes herdados na aprendizagem
não sabes o que são
pergunta ao mestre
 
poucos restam das antigas escolas
diria que uma mão de dedos cheia
basta para dizer quantos
 
por isso cada moliceiro fala do mestre
em silêncio
ou no símbolo que no leme o significa
 
não sabes o que é calafetar
pergunta ao mestre

construção de um moliceiro (15)


29 de agosto

0 ahcravo_DSC_0566

depois de almoço chegámos ao estaleiro quase ao mesmo tempo, eu e o mestre zé rito. os dois e um moliceiro quase acabado.

com a rebarbadora o mestre lixava e depois afagava – interessante esta palavra – a madeira com a mão, para sentir a perfeição do trabalho efectuado.

palavras poucas, ouvia-se a rebarbadora, corria no ar uma poeira fina de madeira e o fundo do moliceiro adquiria um face nova.

havia ainda muito para fazer: calafetar, aparafusar, betumar, colocar pequenas cavilhas de madeira em pequenos furos…. tudo coisas miúdas, mas muitas.

ao longo da tarde foram chegando os amigos e o material que fazia falta. o mestre continuava sozinho, o seu trabalho enquanto a conversa o envolvia e amenizava a dureza da exposição ao sol.

na edição deste registo, mais que um momento queria transmitir um sentimento: o da solidão do mestre.

não sei se o consegui, mas depois de ter estado quase todo o dia no estaleiro só tinha uma frase para descrever o dia de hoje:

a solidão do mestre

espero que a sintam

NOTA – o bota- abaixo é pelas 15 horas, de quarta-feira dia 31

(torreira; 29 de agosto de 2016)