os moliceiros têm vela (51)


do ouvir

como se planassem

é esta a luz, é este o cantar

uma voz antiga
debruçada na janela
dos meus olhos
canta

canta como se
ouvisse outras vozes
mais antigas
cantar

cantar palavras de luz
é destino
de quem nasceu para
ouvir

ouve-as comigo

foi para ti que cantei esta canção

foi para ti que cantei esta canção

(torreira; regata do s.paio; 2010)

vivelinda bastos


a ria não dá para camaradas

a encomenda

a encomenda

um saco de 20 kg ao ombro
depois de várias horas curvada
na apanha no cirandar na escolha

a maior fábrica do distrito
emprega homens e mulheres
da murtosa e arredores

mariscadores desempregados
legais e clandestinos
ganham na apanha dos bivalves
o amargo pão que levam à boca

a ria não dá para camaradas

e elas deixam a casa e vão
na bateira ao lado do homem
mais dois braços duas pernas

o corpo depressa se desgasta
no rosto os traços fundos
cavados pelo sal o sol a dor

são as  mulheres da ria

o esgar do esforço

o esgar do esforço

(torreira; marina dos pescadores)

os moliceiros têm vela (49)


da praça

a luta é dura

a luta é dura

no centro da praça
não navegam barcos
correm papéis por sobre
secretárias modernas
onde escribas ocupam cadeiras
e fabricam o tempo à medida
dos senhores da terra

do centro da praça
partem emissários e ordens
encomendas e despachos
fabricam-se realidades
emitem-se pagamentos
decide-se o quê
quando como para quem

ao centro da praça
exactamente ao centro
uma coroa de flores
espera os fiéis

defuntos

mais dura é a razão

mais dura é a razão

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

postais da ria (68)


meditação com a ria em fundo

a solidão, o silêncio, o corpo dorido, mariscar

a solidão, o silêncio, o corpo dorido, mariscar

tenho o tempo
que o tempo me der

sou o meu tempo
com todo o tempo
que lá couber

não mato tempo
nem o de antes
nem o que depois

não roubo tempo
ao tempo
que perder tempo é

ao tempo dou
tudo o que tenho
e ele quiser

um pouco de mim
num tempo qualquer

o que os olhos vêem o corpo não sente de tanto doer

o que os olhos vêem o corpo não sente de tanto doer

(ria de aveiro; torreira; mariscar)

os moliceiros têm vela (45)


ora batatas

vai haver vento

vai haver vento

cultivam as palavras
como se agricultura diversa
no engano de ser verde
a esperança gerada

falam bem dizem muito
calam quase tudo
vencem pelo que não dizem
não prometem
logo não é cumprir é normal

servem-se do medo como arma
do hábito
nascem vitórias como repolhos

ora batatas para tais palavras

houvesse vento em terra ...

houvesse vento em terra …

(murtosa; regata do bico; 2010)

os moliceiros têm vela (44)


renasço quando sonho

navegam ainda em mim

navegam ainda em mim

vieram por todos os caminhos
líquidos da memória
voavam no amanhecer do tempo
no mais fundo da memória

abracei-os como se irmãos
perdidos há muito
em terra minha deixada

renasço quando os sonho

o sonho não morreu

o sonho não morreu

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (43)


traquinas

um sorriso de criança

um sorriso de criança

trago nos olhos
um sorriso de criança

uma fisga na mão
um papagaio de papel

uma bola de sabão
um carrinho de madeira

umas caricas oferecidas
um jogo por acabar

dentro de mim
nasce uma pergunta
traquina

nunca mais cresces?

um jogo por acabar

um jogo por acabar

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (41)


fruto e semente

o tempo

o tempo

como tudo é frágil
e se quebra
por entre o fragor
dos dias

de água a memória
escorre
de pedra fora e não

dou-vos palavras
palavras palavras
e não digo nada
sinto tudo como se

somos
fruto e semente

toda a beleza é o instante em que

toda a beleza é o instante em que

(murtosa; regata do bico; 2007)