do tempo
sento-me em frente
a mim
olho-mo como se outro
corpo
carne ossos coisas
digo-me
quantos em mim
sou eu
que não me sinto?
desentendo-me
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
a ria não dá para camaradas
um saco de 20 kg ao ombro
depois de várias horas curvada
na apanha no cirandar na escolha
a maior fábrica do distrito
emprega homens e mulheres
da murtosa e arredores
mariscadores desempregados
legais e clandestinos
ganham na apanha dos bivalves
o amargo pão que levam à boca
a ria não dá para camaradas
e elas deixam a casa e vão
na bateira ao lado do homem
mais dois braços duas pernas
o corpo depressa se desgasta
no rosto os traços fundos
cavados pelo sal o sol a dor
são as mulheres da ria
(torreira; marina dos pescadores)
da praça
no centro da praça
não navegam barcos
correm papéis por sobre
secretárias modernas
onde escribas ocupam cadeiras
e fabricam o tempo à medida
dos senhores da terra
do centro da praça
partem emissários e ordens
encomendas e despachos
fabricam-se realidades
emitem-se pagamentos
decide-se o quê
quando como para quem
ao centro da praça
exactamente ao centro
uma coroa de flores
espera os fiéis
defuntos
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
meditação com a ria em fundo
tenho o tempo
que o tempo me der
sou o meu tempo
com todo o tempo
que lá couber
não mato tempo
nem o de antes
nem o que depois
não roubo tempo
ao tempo
que perder tempo é
ao tempo dou
tudo o que tenho
e ele quiser
um pouco de mim
num tempo qualquer
(ria de aveiro; torreira; mariscar)
ora batatas
cultivam as palavras
como se agricultura diversa
no engano de ser verde
a esperança gerada
falam bem dizem muito
calam quase tudo
vencem pelo que não dizem
não prometem
logo não é cumprir é normal
servem-se do medo como arma
do hábito
nascem vitórias como repolhos
ora batatas para tais palavras
(murtosa; regata do bico; 2010)
traquinas
trago nos olhos
um sorriso de criança
uma fisga na mão
um papagaio de papel
uma bola de sabão
um carrinho de madeira
umas caricas oferecidas
um jogo por acabar
dentro de mim
nasce uma pergunta
traquina
nunca mais cresces?
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)