dos dias
amanhã outro dia será
comigo ou sem
o tempo seguirá o seu curso
sereno e ridente
uma flor abrirá algures
as pétalas ao sol
uma criança beijará a mãe
e muitos terão partido
hoje sou e canto
(ria de aveiro; regata da ria; 2011)
hora imprópria
(para o josé antónio pereira)
fotografar quando?
como?
porquê?
porque me provocaram
hoje fui à murtosa e um amigo
que me viu
por sinais perguntou
se eu tinha ido fotografar
hora de almoço na torreira
em frente à ria
no meu poiso de bem comer
o veleiro
as bateiras poisadas na ria
a ria poisada em si mesma
a luz feria
a hora imprópria
o desafio
irresistível
a fotografia
a possível
não me provoquem
(torreira, 3 de janeiro; 13h)
são tantos
vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram
vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram
lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia
são os rios desta terra
(torreira; regata do s. paio; 2014)
a (minha) matemática do tempo
somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem
quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei
um ano mais
um ano menos
um ano apenas
(murtosa; regata do bico; 2012)
MOLICEIROS SEMPRE!
quando a pedra floriu
o chão sorriu
de ter enganado o semeador
sabedoria antiga
não bebe vinho a martelo
nas águas plácidas da ria
outra pedra caiu
em círculos riscados à tona
por instantes
a sua memória espelhada
nada mais
nada
(murtosa; regata do bico; 2007)
FELIZ ANO NOVO