os moliceiros têm vela (32)


dos dias

sucedem-se no tempo e ...

sucedem-se no tempo e …

amanhã outro dia será
comigo ou sem
o tempo seguirá o seu curso
sereno e ridente

uma flor abrirá algures
as pétalas ao sol
uma criança beijará a mãe
e muitos terão partido

hoje sou e canto

e o vento?

e o vento?

(ria de aveiro; regata da ria; 2011)

postais da ria (60)


hora imprópria

(para o josé antónio pereira)

a luz

a luz

fotografar quando?
como?
porquê?

porque me provocaram

hoje fui à murtosa e um amigo
que me viu
por sinais perguntou
se eu tinha ido fotografar

hora de almoço na torreira
em frente à ria
no meu poiso de bem comer
o veleiro

as bateiras poisadas na ria
a ria poisada em si mesma
a luz feria
a hora imprópria
o desafio
irresistível

a fotografia
a possível

não me provoquem

as cores

as cores

(torreira, 3 de janeiro; 13h)

os moliceiros têm vela (27)


são tantos

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram

vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram

lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia

são os rios desta terra

homem da ria

homem da ria

(torreira; regata do s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (25)


a (minha) matemática do tempo

ouço-me para te ouvir

ouço-me para te ouvir

somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem

quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei

um ano mais
um ano menos

um ano apenas

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (24)


MOLICEIROS SEMPRE!

a caminho do novo ano

a caminho do novo ano

quando a pedra floriu
o chão sorriu
de ter enganado o semeador

sabedoria antiga
não bebe vinho a martelo

nas águas plácidas da ria
outra pedra caiu
em círculos riscados à tona
por instantes
a sua memória espelhada

nada mais
nada

um ano novo a colorir de moliceiros

um ano novo a colorir de moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

FELIZ ANO NOVO