pescar em terra?


 

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

(meditação com a ria em fundo)
não te ofereço os dias
em que habitas
deram-te aos dias e neles
habitarás
e serás ou não

a casa será à tua medida
fa-la-ás se por ela fores

o pescador faz-se à ria
sem saber se de peixe virá servido
faz os dias onde a sorte
por vezes mora

jamais pescará em terra

 

(ria de aveiro; torreira)

zé pedro miranda


 

o paulo agarrrado à escota da vela do moliceiro

o zé pedro a agarrar a escota da vela do moliceiro

 

 

filho do alfredo miranda, a quem devo o manual do curso para arrais da ria e que muito jeito me tem feito, e neto do mestre zé rito – antigo moliceiro e actualmente mestre construtor de bateiras e moliceiros no estaleiro da torreira – o zé pedro é um verdadeiro homem da ria.

atento a toda as obras do avô, tem sempre um reparo a fazer, mas é a velejar e ao leme dos moliceiros que se sente bem.

aos 14 anos de idade, ao leme do moliceiro do ti manel valas, primo do avô, ficou em segundo lugar na regata do s. paio da torreira, de 2013.

é em putos como ele, com a tradição no sangue, a arte nas veias e a cultura que vão adquirindo na escola, que a ria continuará a viver.

 

(torreira; 2013)

o medo


 

a safar redes no chegado

a safar redes no chegado

 

 

o medo

queria-o de contornos

bem definidos

reconhecível

 

não assim

pressentido em cada frase

nos semblantes

na dúvida inserta a tudo

no tempo e nos modos

nos dias de cada um

 

amanhã

começará abril

o iluminado mês em que cravos

por armas se trocaram

 

amanhã

queria oferecer-te um país

colado no rosto de um povo

que tivesse nomes de gente desta terra

e não palavras estranhas

orçamentadas e frias

por habitantes

 

não tenho medo do medo

que dele conheci as manhas

tenho medo que tu o tenhas

e à sua sombra vivas

só por medo do medo

 

não te roubaram o sol

mas

terás de lutar por ele

de novo

lameirense, a memória de um moliceiro


 

 

o lameirense vivo e a vencer a nortada

o lameirense vivo e a vencer a nortada

em 2009 era assim, um barco pujante, o último moliceiro do torrão do lameiro, freguesia do concelho de ovar que confronta a sul com a torreira.

hoje nada mais é que memória, haverá 2 anos que com o casco apodrecido, partiu para aveiro.

 

um a um os moliceiros vão deixando de ser os barcos da ria, para serem os barcos do canal de aveiro.

 

fica a memória de um tempo. nada mais.

 

(regata da ria, 2009)

a lição


 

o fernando nuno a repara as redes da solheira

o fernando nuno a repara as redes da solheira

 

(o drama do redeiro

“quanto mais malhas faço
mais buracos ficam”)

 

sabe-te aqui
um aprendiz da vida
das coisas simples
que não carecem de escola outra

em cada dia
comer o pão
suado
é lição bastante
de sabedoria

ouve

(torreira; porto de abrigo)

escuta-te


 

 lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

                                                                                    lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

raiva de não poder
prender o tempo
permanecer por dentro
dos instantes em que
o deslumbramento
cresce para mim

escuto de novo o silêncio
a isso te convido também

o que ouves
não é som
é imagem
é música

escuta-te

 

(ria de aveiro; torreira)

a imagem é a mensagem


 

 

a apanha de bivalves nos secos da ria

a apanha de bivalves nos secos da ria

 
busca a essência dos dias
nas coisas mais simples
que não as mais evidentes
muitas vezes sequer as visíveis
abre os dias por dentro

não são de oiro o suor
as dores no corpo vergado

mostra o sentir
mesmo se tiveres de mostrar
o que não se vê

a imagem é a mensagem

 

 

(ria de aveiro; torreira; mariscar)

vive


são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

 

escuta de novo

o silêncio

a beleza adivinha-se

senta-te dentro de ti

espera

 

deixa que os teus sentidos

se resumam a um só

a visão

vê tudo como se nunca mais

é único

és único

 

nada se repete

e tu

tu estás aqui agora

 

sorri apenas

 

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

os putos da ria (1): léo brandão


 

léo brandão

léo brandão

 
desde pequeno que o léo é um amante da ria, o pai, o joão padas, só o deixa “trabalhar” na ria durante as férias e se passar de ano.

tem tudo à sua medida, fato de borracha, cabrita alta e baixa.

é um verdadeiro homem da ria, de uma timidez e capacidade de ajuda fabulosas.

este registo é de 2011

 

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)