o homem queria
pescar um barco
sonhava
com uma cana na mão
arma sua única
sonhava
que um dia
não sabia quando
iria apanhar
um barco
peixe
era coisa
que todos
quem não sonha
assim
não sonhou nunca
(torreira; porto de abrigo)
esgota-se o gesto
no movimento
suspende-se a mão
no instante
a voz
queda-se por onde
os amigos
quem passa
quem sabe
das horas a
largar
alar
safar
arrumar?
feitas
as contas
a paga
não chega
para
partes e
são de mar
do alto
os dias de pão
que trarás
que comerão
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)
a cabrita baixa é uma das artes mais duras da ria de aveiro.
é uma arte mariscadora de arrasto pelo fundo que exige muita força de braço, jogo de cintura e muita resistência.
são frequentes as lesões no músculo do cotovelo, por isso a posição da mão que sobre ele se fecha.
o sofrimento é visível no rosto de ana tripas.
na ria é assim
(torreira; cabrita baixa; 2012)
a história da ria
escreve-se com m
de moliceiro
o barco menina
donzela de luxo vestida
o barco de cintura fina
como as raparigas da
murtosa
foram o ganha pão
de tantos
o moliço a maior fonte
de riqueza da ria
moliceiro
é caso raro
é nome do barco
e do homem que nele
escrever-se-á
sempre com m
mesmo se
memória só um dia
(torreira; regata de s. paio; setembro, 2101)
a tua casa
a tua vida
o teu lugar onde
és o que
o teu contexto
de sobrevivência
quanto custa seres
aqui?
o que és se aqui
não for?
sobreviver
não é subservir
o homem
é ele e a sua palavra
onde quer que
desconhece outra geografia
que não a do que pensa
a verdade não é localizável
no mapa dos interesses locais
é
mesmo que a sonegues
ou
propositadamente a ignores
partiu-se um vidro na janela
era o teu nome