trago palavras
a bailar
dentro de mim
as que te dou
nada mais são
que passos de danças
inacabadas
letras soltas
músicas perdidas
canções por inventar
tudo
tudo baila dentro de mim
só sei sonhar
(torreira; regata de s. paio; 2010)
inventar um país
para este povo
o que ergue a bandeira
mesmo se longe
o que deu o sangue
mesmo se errado
o que se deu todo
e se sente enganado
inventar um país
não é
destruir um povo
inventar um país
é ter de
se necessário
recomeçar de novo
é urgente
(torreira; porto de abrigo)
a lama chegava onde
a maré de ir
atolei-me
e também fui
a lama chegou-me onde
são muitos
mais que todos os outros
menos que os outros todos
ouviram as promessas
acreditaram
quiseram
esperarão
e terão
um dia
não o que querem
não o que merecem
o que lhes derem
será o que
quiserem
quem pesca na ria
não pesca no prato
a lama chegará ainda
(torrreira; porto de abrigo)
uma frágil linha
ténue
brevíssima
separa o real do real
(confunde-te o que digo
mas escuta)
se longe ou de perto
o mesmo
é muito diferente
como o vires
assim o darás
a beleza longe
é dor se perto
ambas reais
que tu recrias
em coisa única
sem o saberes
não sejas apenas
os teus olhos
(torreira; cabrita de pé)
pisam um palco
que sempre foi seu
jardineiros de um jardim
ora submerso
ora flutuante
são os mais belos
barcos do mundo
as mulheres dos barcos
machos do mar
esbeltos oferecem-se
ao casamento manso com
as águas virginais
(em tempo diria)
da ria
são tão belos
quanto usados
e desprezados
pelos que os usam
como emblema
orgulho e amor de quem os tem
por filhos e amantes
os cisnes da ria
já são poucos
precisa-se de homens
com h
(bico; murtosa; regata de moliceiros)
o esgar vincado
na beleza deste rosto
fala de uma outra ria
da do sangue
que corre sobre as águas
e mergulha fundo
em busca do pão
o pão enterrado na lama
o pão que poucos amassam
que é dura
muita dura a faina
sempre que vires o nascer do sol
uma névoa a cobrir tudo
e tudo te surja carregado de beleza
postálica vendável em quiosques
popularizada em páginas de fotografia
lembra-te
lembra-te deste rosto
que não viste
porque ficaste na margem
(ria de aveiro; canal de ovar; torreira)