carta a pedro e ….


 

a força do homem

a força do homem

 

como queres que entenda
o que dizes
se do riscado disco
mesmo depois de feito reparo
continua a ouvir-se na sala velha
da velha dama
a antiga canção do bandido

não como números
não os visto
queres que os dê ao pequeno almoço
às crianças e ao almoço ao idosos
os sirva de jantar nas ruas aos sem abrigo

na janela dos teus olhos
só se pendura roupa suja
da tua boca pingam nacos de toucinho velho
come-los tu e dá-nos os teus manjares
isso sim entenderia
entenderíamos

não prestas como vendedor
mas sei como te compraram

(regata da ria; junho 2010)

estória da ria


 

jim

jim

esgota-se o gesto

no movimento
suspende-se a mão
no instante

a voz
queda-se por onde
os amigos
quem passa

quem sabe
das horas a
largar
alar
safar
arrumar?

feitas
as contas
a paga
não chega
para

partes e
são de mar
do alto
os dias de pão
que trarás
que comerão

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

8 de março de 2014 (1)


ana tripas a cabritar

ana tripas a cabritar

a cabrita baixa é uma das artes mais duras da ria de aveiro.

é uma arte mariscadora de arrasto pelo fundo que exige muita força de braço, jogo de cintura e muita resistência.

são frequentes as lesões no músculo do cotovelo, por isso a posição da mão que sobre ele se fecha.

o sofrimento é visível no rosto de ana tripas.

na ria é assim

(torreira; cabrita baixa; 2012)

não digas nada


o lançar da cabrita

o lançar da cabrita

 

não digas nada

queda-te onde

olha apenas

sente tudo

sente

 

o silêncio

por dentro

enche-se de

palavras

que

nunca dirás

porque nada dirão

do que viste

 

depois parte

não digas o como

não o saberás

diz que venham

tão só isso

 

não digas nada

 

(ria de aveiro; torreira; cabrita alta)

cisnes da ria (1)


 

 

moliceiros de velas ao vento

moliceiros de velas ao vento

 

a história da ria
escreve-se com m
de moliceiro
o barco menina
donzela de luxo vestida

o barco de cintura fina
como as raparigas da
murtosa

foram o ganha pão
de tantos
o moliço a maior fonte
de riqueza da ria

moliceiro
é caso raro
é nome do barco
e do homem que nele

escrever-se-á
sempre com m
mesmo se
memória só um dia

(torreira; regata de s. paio; setembro, 2101)

 

do ficcionado (des)equilíbrio


o meu amigos salvador belo, cuja posição me inspirou

o meu amigo salvador belo, cuja posição me inspirou

 

 

a tua casa
a tua vida
o teu lugar onde
és o que
o teu contexto
de sobrevivência

 

quanto custa seres
aqui?
o que és se aqui
não for?

 

sobreviver
não é subservir

 

o homem
é ele e a sua palavra
onde quer que
desconhece outra geografia
que não a do que pensa

 

a verdade não é localizável
no mapa dos interesses locais
é
mesmo que a sonegues
ou
propositadamente a ignores

 

partiu-se um vidro na janela
era o teu nome