o mais belo barco do mundo


regata de moliceiros no s. paio da torreira, 2010

 

traz o sol no regaço

de menina esbelta

semeia de estrelas

as águas

desliza manso

como se não

 

beija a ria

com amor

de filho

de irmão

de amigo

(de despedida

agora quase)

 

aqui nasceu

e se fez

o mais belo barco

do mundo

 

o moliceiro

 

quem cuida dele

cuida de si

quem o não faz

não se sabe

mesmo se o pensa

é tempo


 

 

é tempo

meu amigo

e quando é

que podes tu?

 

belos foram os dias

de sol

coloridos os olhos

esquecidos de si

de tanto serem

o que viam

 

é tempo

meu amigo

reaprende a voar

e lembra-te que o bando

é coisa efémera

tanto

quanto bela

 

todos os dias

foram o dia

mesmo quando

parecia que não

eram sem o sentires

porque eternos os julgavas

 

é tempo

amigo

o inverno não tem data

senão no calendário

 

(ria de aveiro; canal de ovar)

são eu de novo


cais do bico, murtosa

 

nada dizem agora

as palavras

apenas os olhos

se abrem sobre

vês

 

o filme

silenciosamente

enche-te de memórias

e era ali

e já não é aqui

quem era já foi

tu

tu também

 

moliceiros mercantéis

caçadeiras

barcos da ria de então

deles cheia

esse sim o tempo

que cala as palavras

 

olhas apenas

recordas

revives

és de novo

e tantos

tanto

contigo

solidariedade na ria de aveiro


 

são todos e são um só

 

mais não havia

que se houvera

mais haveria

a uma voz

respondem

não importa qual

todos a seguem

porque lhe  reconhecem

a justeza do mando

 

ser pescador

é trabalhar em rede

há, porém, buracos ainda

a remendar

ou não fossem homens

que da perfeição

nada sabem

senão o trabalho

de a tentar

 

(ria de aveiro;torreira; marina dos pescadores)

a minha ria


estranha beleza esta

erguida sobre

moribundos fundos

poluídos

contaminados

pela ganância do lucro

 

cantem a ria

cantem-na sim

depois de a terem silenciosamente

assassinado

cúmplices

no terem estado aqui sempre

 

vendam os postais

falem das belezas que queiram

exibam-se nas fotografias

nas ruas e nos largos

mas é de lodo

lama e podridão que falo

 

digo:

esta já não é a ria

que me viu crescer

 

esta é a ria onde ainda

há homens que colhem o pão

amargo e amargos

de se saberem tão pouco

nos actos de quem

tanto deles a barriga enche

 

esta é a ria

que me deixaram

mas que não deixo

 

(torreira; marina dos pescadores; maré cheia)

ti cravo_ memória de um verão


luminosos os dias
passaram

na memória desenhados
os contornos de um tempo cheio

entre mar e ria repartido
diversas as artes, os homens, as histórias

nas companhas com os homens
que dominam o medo
galgando o mar com gritos de:
bota! bota! bota!

na ria com os serenos
pescadores das bateiras
sobrevivendo até à próxima partida
para o arrasto, para o bacalhau
em busca do sustento que a ria nega

o zé rito
está a fazer um moliceiro novo
para a regata de julho
e o barco é de todos
ponto de reunião e união
“já foste ao barco hoje?”

duas miniaturas magníficas
feitas pelo ti henrique
enriquecem a minha galeria:
um moliceiro e uma caçadeira
temos projectos para outros

um jovem pescador do mar
quando me fui despedir
pergunta:

“oh ti cravo!
para onde é que vai?”

(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)