
é verão e tudo arde só em mim o fogo se faz água
(torreira; 2011)
um urso de peluche na bica da proa da bateira a coluna sofrida de tanto um sorriso e um abraço enormes pescará ainda enquanto o corpo que outra arte não sabe reparte o amor entre os seus e a ria por vezes queixa-se mas de dores reclama da balança do intermediário do roubo descarado do pão transformado em carros de luxo a democracia ainda não chegou à ria aqui a dita dura é ela que decide o quê quando e por quanto são estes os homens livres aos olhos de quem chega admira a beleza da paisagem regista-a e divulga mas é de lama que se trata aqui anda vem aprender a ria
(torreira; 2008)
Arte do caranguejo
palavras de maria da conceição:
” Há mais de vinte anos que o meu marido (Gonçalo Rito de 69 anos) anda ao caranguejo. No tempo do escudo o caranguejo era a 60 escudos o kg a partir de outubro, em junho, que é quando ele falha, porque é o tempo dos chocos, então aí começavam a pagar 90 e 100 escudos. Agora quando veio o euro o caranguejo passou para 25 cêntimos, mas sai a 20 ao pescador porque cinco ficam na lota. De maneira que niguém quer trabalhar nisto agora.
O caranguejo é embalado em sacos de 15 kg, às vezes de 10 kg, porque são muitos sacos e isto é um bocado trabalhoso e é muito pesado. Agora ninguém quer, vai o meu marido e o marido da Maria Eneida, o Manuel Mole, não vai mais ninguém.
Até outubro o caranguejo é pequenino e está enterrado por causa do choco e das águas quentes, só se levanta quando a maré alta lhe chega. Ontem o meu marido foi à ria e trouxe 12 sacos, são 150 kg, a 20 cêntimos veja quanto é que dá, hoje saiu para a ria às 4 da manhã e só para as 4 da tarde é que deve estar por aí. Depois é preciso arrumar e arranjar os sacos para a encomenda e ficamos até noite, 6 horas, sete horas da tarde ainda estamos aqui.
Isto é uma vida que já ninguém quer, nós já não temos idade para mudar de vida mas isto é muito mal pago.”
o caranguejo é adquirido por um comprador espanhol, que vem duas ou três vezes por semana e que o leva para a galiza, onde é usado para fazer pasta de caranguejo e como isco para a dourada e para o polvo.
em tempos esta arte deu de comer a muitos pescadores, hoje, na murtosa só estas duas bateiras restam, entende-se pela diferença dos preços de compra no tempo do escudo e na era do euro, o porquê do desaparecimento de quem se dedique a esta arte.
a arte de manuel mole
manuel mole arma 34 bolsas, que são largadas individualmente nos canais da ria, cada bolsa assenta no fundo e é identificada pela bóia que lhe está amarrada.
as bolsas ficam cerca de 1h30m na água, dependendo da força das marés — quando a água começa a para de fim de maré até ao momento em que começa a correr mais na seguinte -, e são levantadas a cada quarto de hora para retirar o caranguejo apanhado.
as bolsas são largadas quando as águas não correm muito, ou seja, próximo do final ou de início de cada maré. A pesca é muito variável como toda a pesca artesanal, à abundância no tempo frio sucede a escassez nos meses mais quentes — de junho a outubro.
de qualquer modo os custos fixos são sempre de 20 euros para o isco e um mínimo de 15 euros para gasolina.
o tempo de trabalho, entre a partida e a chegada da ria é de 12 horas.
vejo-me ainda no olhar o outro nas palavras nos silêncios descubro-me e descubro escuto-me ouvindo eu sou já o cresci em mim ao sê-lo também nos que me rodeiam sou com o prazer de me ser não sei de solidão somos muitos em mim seremos ainda quando um não for assim a memória de um tempo para além de
(torreira)
recuso outro tempo que não o meu sou o agora e o aqui na inquietação de querer melhor sou a pedra no vidro o prego no sapato não mudo de passeio mudam não ponho máscaras sou-me irritantemente por vezes sei e nunca é demais não procuro encontro reencontro vomito quisera ser o grito
O Pardilhoense é um barco moliceiro construído no ano de 1996, em Pardilhó, em casa do anterior proprietário, Sr. Carlos Vilar. Tem um comprimento de 14,70 metros e uma boca de 2,54 metros. Foi adquirido em 22 Dezembro de 2010 pelo Moliceiro da Costa Nova. Reconstruido pelo mestre Zé Rito em 2011, com madeira de pinheiro bravo para o tabuado e madeira de pinheiro manso para as cavernas. Foi lançado na água nos finais de Junho desse mesmo ano. A madeira de pinheiro bravo veio dos pinhais de São Vicente Pereira, e o pinheiro manso do pinhal de Leiria. Foram respeitadas as medidas do barco anterior e algumas cavernas: o restante foi totalmente feito de novo. Está registado no turismo de Portugal para passeios turísticos, tendo licença para transportar 21 pessoas, incluindo os 2 tripulantes. É o moliceiro mais moderno a operar na ria e um dos poucos a navegar à vela nos passeios turísticos. A sua vela maior tem cerca 80m2. Também já participou em inúmeras regatas. Foi recentemente pintado pelo artista Zé Manel. Os painéis são alterados regularmente com temas novos, para poder participar nos concursos de painéis que ocorrem em Aveiro e na Murtosa (Festa do São Paio). Tenta-se ser o mais criativo e original possível.
(texto de jorge bacelar)
mesmo ao lado um moliceiro em terra:
enquanto um é pintado para navegar outro procura novo dono!
é assim na terra que se diz “pátria do moliceiro”.
afinal, património é investimento na memória ou propaganda balofa?
para os edis da murtosa é propaganda: por todo o lado se pode ler a frase emblemática, mas nada se faz para que os moliceiros continuem a navegar na ria. que apoios dá a câmara municipal aos donos dos últimos moliceiros, para os manterem a navegar? é verdade que a câmara tem um moliceiro, mas que faz com ele?
desditosos filhos que tal pátria tendes!
todos os anos moliceiros são vendidos para fora do concelho, por falta de capacidade financeira dos resistentes para suportar os encargos com a sua manutenção. todos os anos os responsáveis pelo município a isto assistem e continuam a usar, sem qualquer vergonha, a frase ” murtosa pátria dos moliceiros”.
e é verdade, a murtosa é de facto a pátria, os donos da casa é que puseram um letreiro à porta a dizer vende-se.
assim vamos por cá

o peso das raízes prende a nuvem ao sonho gota a gota sobre os dias cai o ser aqui de novo reencontro nas redes as mãos safando limos caranguejos bastos a vida depois do grito negro do choco na face os homens são-me agora mais próximos deito-me ao comprido da ria braços abertos num abraço retido no fundo de mim ergo-me por dentro cresço árvore onde água
(o peso da solheira; torreira)
é esta a minha ria a da sobrevivência das artes aqui homem e mulher são camaradas em tudo iguais o pão que comem colheram-no ambos da mesma fonte é esta a minha ria a da resistência da solidariedade a que nem todos vêem a que alguns mataram conscientemente mas que é a mais bela ria do mundo
(murtosa; cais do chegado; carregar caranguejo)