as flores da virgem


a virgem na bica da proa_renovação do ramo

a fé dos pescadores revela-se nos mais pequenos detalhes, mas há um, nas companhas de xávega, que é emblemático: a imagem do santo padroeiro (mais vulgar a nossa senhora de fátima) na bica da proa rodeado por um ramo de flores.

serão de plástico as flores, que impensável seria naturais, mas mesmo assim vão-se degradando com a fúria dos elementos, por isso, de tempos a tempos, é preciso renovar o ramo e, quiçá a imagem – embora isto seja muito raro, só em caso de acidente e destruição da imagem.

é  o momento em que os homens do mar acarinham a sua protecção como se de uma mãe.

(torreira; companha do murta 2006)

os pescadores e o vinho


pedro

um dos principais flagelos e causa de morte entre os pescadores artesanais é o consumo de vinho. alguns vão-se libertando das suas garras, pelos sustos que apanham ou pura e simplesmente porque decidem.

o pedro está limpo de vinho e é, ele também, um homem novo.

parabéns pedro.

é neste contexto de luta contra o consumo abusivo de vinho, o alcoolismo, que se insere a política do actual governo, quando aplica a taxa de iva de 23% à água e mantém os 6% para o vinho.

se não fosse grave até seria para rir, o vinho é bem essencial e a água um bem de luxo…

recordo, a contragosto, a célebre frase de salazar: “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”, certamente é esta a bíblia segundo s. gaspar.

(companha do murta, torreira, 2006)

a muleta


muleta

 

a muleta é o instrumento utilizado para empurrar a barca até ao mar, movida pela força dos bois no seu tempo e agora pelo tractor.

para além desta função ajuda também a que o barco se mantenha perpendicular à praia, proa feita ao quebrar das ondas, evitando que dê de “querena”. Empurra o barco até este ganhar calado para o motor.

A muleta tradicional é esta, de madeira, no entanto podem ser observadas outras variações, produto da criatividade dos pescadores, quer na praia de mira, quer na torreira, quer ainda a sua ausência quando são usados barcos mais pequenos, até com rodas, em praias com perfil de maior declive, que são empurrados directamente pelo tractor.

 

 

 

o espanto


espectacão

ao espectáculo da azáfama da xávega: homens, mulheres, máquinas, redes, cordas, barco, tractores, movimento, sons e vozes, nada nem ninguém fica indiferente.

até um cão, pára para olhar.

será que é preciso mais para que aqueles que deveriam ajudar na preservação desta arte centenária, atentem na necessidade de a apoiar para além do que até agora têm feito? (nada….)

até um cão, senhores, até um cão não fica indiferente à xávega.

(torreira, 2006)

 

xávega – o recolher do peixe


KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o retirar o peixe do saco com recurso a “xalavares” é o primeiro passo dos últimos de um lanço.

a ele segue-se a escolha, a lavagem e o enchimento das caixas, que serão negociadas com o intermediário e/ou levadas à lota.

enganam-se aquele que pensam que o pescador ganha bem porque o peixe é caro. entre a venda ao intermediário e a venda ao público o preço pode ser multiplicado por mais de 10 vezes.

enquanto os pescadores não se organizarem e forem eles próprios a fazer a venda directa na lota, com exclusão de intermediários, ganham muito os que fazem pouco e ganham pouco os que trabalham muito.

mas isto não passa de um sonho, no que se refere à pesca artesanal. nunca houve organização e não é agora, quando são tão poucos, que vai haver. a subsistência da xávega, não é um milagre, mas é um mistério alimentado com muito suor e reformados.

(torreira; companha do murta; 2006)

 

 

um bom lanço


carapau da costa

a introdução da xávega em portugal esteve relacionada com a pesca da sardinha, enquanto prato de peixe dominante na dieta do país.

com o surgimento das traineiras na pesca da sardinha a produtividade da xávega decresceu significativamente e a única espécie rentável é o carapau.

como escreveu camões “tudo é feito de mudança”, aqui também

(torreira; companha do murta; 2006)

xávega: o abrir do saco


a navalha, ferramenta de eleição de qulaquer pescador

sempre que o aparelho vai para o mar o saco é fechado (cozido) com linha de nylon muito forte, para suportar eventuais boas pescarias (bons lanços).

quando chega a terra, depois de estar em lugar seguro, fora do alcance das vagas de mar, procede-se à sua abertura, com a ajuda de uma navalha que vai cortando o fio.

a operação é, normalmente, levada a cabo pelo arrais.

(torreira; companha do murta; 2006)