gente marinhoa


estão no início e no começo
que à terra volta o que da terra veio
com ela se confundem desde sempre
são o seu rosto o seu corpo vivo

o tempo rasgou-lhes na face
os sulcos onde semeou ternura
e amor
pelas coisas simples
água terra fogo

amam tudo
que natural é assim ser
o milho os animais o chão
amam-se

entre luz e sombra
repartem o dia
porém
tudo iluminam
quando sorriem

são ainda a fala da terra

(palavras para um vídeo de Jorge Bacelar)

denúncia


um país por dentro do país
um povo por dentro do povo
um silêncio

são os que nunca partiram
ou se o fizeram
regressaram porque a terra
à terra torna
e eles são a terra da terra

existem mas são estranhos
aos grandes números
são minuciosos nas pequenas coisas
vivem delas e com elas

se existe beleza naquilo que são
maior seria
a beleza de serem aquilo que lhes negam
porquê hoje ainda assim?

sou cada dia mais estrangeiro
no meu país

(palavras para um vídeo de Jorge Bacelar)

mãe ria


remoçado o veterano, ti zé rebeço

remoçado o veterano, ti zé rebeço

 

ao rés da água

a beleza sorri líquida

os homens são ainda

a continuação de

o regresso ao ter sido

 

velas erguidas desafiam o vento

e a sabedoria de quem

 

de todos os cantos do concelho

onde bateiras ainda

 

a festa renova-se no bolinar

desafiante

 

a ria sorri de plena

mãe renovada

de filhos sempre moços

 

para ler com o filme de Jorge Bacelar

 

pescadores da torreira manifestam-se contra interdição de apanha dos bivalves


a apanha de bivalves na ria de aveiro é, nos últimos tempos, o ganha pão dos pescadores.

a enguia quase não existe, o choco este ano rareou, o linguado pouco é.

restam os bivalves….

análises pagas pelos pescadores num laboratório espanhol de referência, contraditam a interdição imposta pelas análises feitas pela entidade nacional de referência, o IPMA,  e dizem que não há qualquer perigo no consumo dos bivalves. os bivalves apanhados na ria de aveiro destinam-se quase em exclusivo ao mercado espanhol.

no meio deste desencontro de resultados quem não sobrevive são os pescadores.

o vídeo da “Ribeirinhas TV”, com entrevistas a pescadores é elucidativo

a minha gente


 

vêm de longe
de onde a fronteira entre luz
e sombra
era ainda o princípio de tudo
de ti de mim de nós
como se parados no tempo
são o próprio tempo
esperando ser mais tempo ainda

vê-los é entrar em casa
sem nunca ter saído
as manhãs são aqui infinitas
têm a dimensão da memória
aconchegada no regaço
da mãe-terra

vêm de longe
permanecerão para sempre
são a minha gente

 

para ver:

 

 

parceria jorge bacelar (vídeo e fotos)/ahcravo (palavras)

na morte de sophia_caminho da manhã


 

 

caminho da manhã

 

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

in Livro Sexto, 1962