lembro-me de ser assim


 

 

lembro-me de ser assim…

“cumpria-se a terra
depois de agosto
nas eiras plenas de oiro
as desfolhadas

gentes de casa
em casa
o ritual da partilha
dos braços

em coro e ao desafio
a festa
em cantares de antes do milho
mãos
ágeis e sábias desfolhavam maçarocas

vermelha a maçaroca sorria
milho rei
o beijo pedido
celebrava ele também
o reiniciar da vida”

 

mariscadores da ria de aveiro


duvida

é natural que o sintas

o real começa a deixar de o ser

a beleza é sublime demais

estranho

muito estranho

estranhamento belo

 

tão estranho

quanto real

tão belo

quanto duro

tão feérico

como viver da ria

 

é uma existência não existente

uma estranha forma de ser

ave e lavrar a lama

nisto se fazendo gente

pairar sobre as águas

será sonho

mas quem pode evitar

o sonho de voar?

 

fica na dúvida

guarda-me a teu lado

um lugar

fiquemos assim ambos

sentados sem saber se

é o real que estamos a olhar