abate do lá sam paio_ o vídeo


o olá sam paio a caminho do mar

 

a 3 de agosto de 2012, procedeu a polícia marítima de aveiro ao abate do barco de mar olá sam paio, propriedade dos herdeiros do falecido arrais zé murta.

pensa-se que o barco será colocado na rotunda das escolas da torreira que, finalmente, terá um barco numa das muitas possíveis localizações. já não era sem tempo.

o barco foi substituído por outro com o mesmo nome, embora mais comprido, conforme desejava o falecido arrais, e cujo bota abaixo foi no dia 4 de agosto – aniversário de maria murta, viúva do arrais zé murta

tal como o seu antecessor o novo barco foi feito em pardilhó nos estaleiros do mestre felisberto.

 

o vídeo do abate

pescadores da torreira (cabrita alta)


 

joão manuel brandão

 

quantos anos tem um corpo?

 

ao pesado fardo

do ganha pão

os corpos curvam-se quebram-se

rápido se desgastam

 

retesados músculos

em esgar de dor

os rostos

são facas que cortam

quem os vê

 

cedo amanhecem os dias

e a ser os anos

ninguém os canta

poucos os contam

vivem no silêncio

aí permanecendo até que

 

alguns os exploram e exportam

o suor e o sangue

o corpo

feito mercadoria

lucrativa

vendida a estranhas gentes

 

são os pescadores

da torreira

moliceiros em extinção_sic_2009


moliceiro em construção no estaleiro velho do mestre zé rito

http://videos.sapo.pt/AbMEzvCvnndZYrtrciyg

daí para cá, de nada serviu este alerta e este ano (2012), a tradicional regata torreira/aveiro foi cancelada.

seria bom apurar as responsabilidades deste cancelamento, uma vez que o orçamento REAL, cerca de 8.000 euros, não é justificação.

será que houve orçamentos surreais? será que houve conhecimento do cancelamento e não comunicação aos moliceiros?

é tempo de verdade

peixeira ou saltadoiro


peixeira ou saltadoiro

murtosa, bestida, 2009

em 2009 o ti manel viola tinha 88 anos e ainda ia à pesca. a arte que ele e o filho alfredo usam responde por diversos nomes: peixeira, salto, saltadoiro.

se às diferentes formas de pescar se chamam artes, não conheço nenhuma outra a que tão merecidamente se lhe aplique a designação.

tanto quanto sei, só existe uma bateira com esta arte na ria de aveiro, a do ti manel viola na bestida, murtosa.

é uma arte de emalhar dedicada prioritariamente à pesca da tainha.

saímos da bestida ao meio dia (tínhamos de chegar aos possíveis pesqueiros com a maré a parar, requisito necessário à arte) e regressámos às 19h.

quando o alfredo, que ia ao motor, sabia que se aproximava um possível pesqueiro, parava o motor e começava a fazer deslizar silenciosamente a bateira impulsionando-a à vara.

se via taínhas a voz era : “estou a sentir peixinho” ou “estou a ler a ria e vejo peixinho”. lançamos a rede pai? e o ti manel: tu é que sabes filho.

se sim, o ti manel lançava as redes e o filho ia guiando a bateira de forma a que se constituísse o cerco.

depois de armada o aparelho, voltava-se ao princípio (o curral), batendo sempre com a vara na água, do lado de fora da rede, para empurrar o peixe para a malha.

enquanto se bate na água, o peixe ou fica emalhado no cerco, não muito, ou vai caminhando em direcção ao curral.

no curral, ou fica emalhado na rede de tresmalho que constitui o curral, ou, sendo a tainha um peixe que salta bem para fora de água, tenta passar por cima do tralho da cortiçada caindo, para seu mal, na manga, rede fixa na horizontal paralelamente ao curral.
enquanto se vai rodeando o cerco os olhos vão sempre acompanhando o comportamento do peixe. vai-se assim calculando a parte visível do lanço.

depois de chegar ao extremo do cerco, que fica perto do curral, começa-se a colher o cerco (cerca de 200 metros de rede) até se chegar de novo ao curral.

nesse dia fizemos 3 lanços. desde o montar do curral e da manga, passando depois pelo lançar do cerco, até ao final de cada lanço, decorrem cerca de duas horas.

o ti manel e o filho alfredo têm lugar de venda na praça de pardelhas e aí vendem aquilo que pescam, por isso só vão à pesca na véspera dos dias de feira, para garantirem peixe fresco ao freguês.

infelizmente a taínha é um peixe de pouco valor e o alfredo disse, altura, que quando o pai deixasse de ir pescar, acabaria para ele a pesca. em 2012 continua, no entanto, a pescar embora com outro camarada.

o saltadoiro dos violas

o curral é de 7 varas, de cerca 1,50m e nelas, e em outras tantas em paralelo, se prende a manta. é uma arte de 14 varas.

a manta é presa logo à primeira vara, tem uma malha de 0,06m e uma largura de 1,20m

o curral tem um comprimento de cerca de 15m, é uma rede de tresmalho, com altura de 1,20 metros em que o miúdo tem uma malha de 0,08m

o cerco tem perto de 200 metros de comprimento, é uma rede simples, de um só pano, com a altura de 1,20m, uma malhagem de 0,06m e termina com uma chumbada que o fixa ao fundo. entre as duas extremidades não há qualquer fixação, dai a necessidade de se fazer o lanço com a maré quase parada, para que o cerco se mantenha.

(murtosa- torreira – algures no canal de ovar – agosto 2009)