vencer o mar (III)


praia de mira; companha do zé monteiro; barco de mar, s. josé

 
ainda o sol não
já o arrais lê o mar
na pauta das ondas
estuda ritmos e pausas
lisos, lhes chama
 
afinada a companha
estudada que está a sinfonia
todos a executam a seu mando
vão seguros
ao encontro do inesperado 
 
aprenderam a ler o mar
antes das primeiras letras
sem o saberem
deixam escrito na espuma dos dias
um canto imenso à grandeza
de ser homem aqui
onde por vezes parece que já não
 
 
 
 
 

xávega_o aparelhar


agostinho trabalhito (canhoto)

neste registo é perfeitamente visível a disposição do “reçoeiro”, junto à caixa do motor, que irá sendo “largado” à medida que o barco se afasta da costa.
sequência de “largar” do lanço: reçoeiro, manga do reçoeiro, saco, manga da mão de barca, mão de barca.

 

 

é este o aparelho da xávega

(torreira; companha do murta; 2007)

só se no mar


lagoa azul

 

do milheirão
a companha se dizia
lagoa azul
do barco o nome

venceram o mar
não venceram o tempo
foi-se a companha
jaz o barco em terra
no barracão envergonhado
de não ter mais mar

barco em terra deixado
é madeira afeiçoada e decorada
mas jamais
lhe poderás chamar barco
que mar não vê já

foram-se os homens
a outras companhas o pão
ganhar
que esta é a vida de quem nasceu
para ser homem só se no mar

(praia de mira; companha do milheirão; 2009)

 

o chamado da xávega


henrique bastos

 
uma das características das companhas de xávega, na torreira, é a participação da juventude na faina.
 
começam miúdos, “canalha” ainda, como se diz na praia, e depois continuam nos períodos das férias escolares. alguns, mesmo se arranjam trabalho noutra actividade que não a pesca, é a ela que retornam em período de férias laborais.
 
o chamado da xávega e da ria são muito fortes. do mar para a ria e em sentido inverso, a pesca está no sangue desta comunidade.
 
(torreira, companha do murta, 2007)

é urgente


o pescador filósofo

ando por aí
no inventar de caminhos
encontros e desencontros
fabricando sonhos
nas noites diurnas

a acender fogos
no seio das rochas mais frias
para que nasçam rios cheios
de olhos abertos

a plantar árvores
em cima do mar
ver crescerem barcos
onde mais que homens são
os que lá dentro vão

na minha rede só letras
plantadas nos regos abertos pela enxada
desta cabeça imparável

acender lume nas pedras
abrir olhos nos rios

é urgente

(torreira; companha do marco; 2011)