não há liso (o vitor revisitado)


vitor caravela

 
como são longos os dias
longe do mar
olho o teu retrato
e estás de novo ao meu lado
 
um sorriso nos lábios
a alegria de estar aqui
no mar
no nosso mar, vítor
 
há dias em que a tristeza
e a memória
fazem maré cheia
e são ondas e ondas
em que se não vislumbra um liso
 
porque tem de ser assim?
 
vamos resistindo
deixando pelo caminho
amigos, família
a solidão cresce
vítor
 
como são longos os dias
longe do mar
a solidão cresce
vítor
a solidão cresce

serem aqui gente


as mulheres-meninas da torreira

 

mulheres-crianças-meninas

ao peso das redes e das cordas

crescem na areia

beijando o mar

 

sabem das férias

o sabor a sal

a escamas no rosto

o corpo inteiro é

 

resistem

que mais se lhes não pede

não as chamam

vêm

não lhes pedem

fazem

 

crianças-meninas-mulheres

sorriem brincam são mais

no serem aqui

gente

 

(torreira; companha do murta)

vencer o mar (III)


praia de mira; companha do zé monteiro; barco de mar, s. josé

 
ainda o sol não
já o arrais lê o mar
na pauta das ondas
estuda ritmos e pausas
lisos, lhes chama
 
afinada a companha
estudada que está a sinfonia
todos a executam a seu mando
vão seguros
ao encontro do inesperado 
 
aprenderam a ler o mar
antes das primeiras letras
sem o saberem
deixam escrito na espuma dos dias
um canto imenso à grandeza
de ser homem aqui
onde por vezes parece que já não
 
 
 
 
 

xávega_o aparelhar


agostinho trabalhito (canhoto)

neste registo é perfeitamente visível a disposição do “reçoeiro”, junto à caixa do motor, que irá sendo “largado” à medida que o barco se afasta da costa.
sequência de “largar” do lanço: reçoeiro, manga do reçoeiro, saco, manga da mão de barca, mão de barca.

 

 

é este o aparelho da xávega

(torreira; companha do murta; 2007)

só se no mar


lagoa azul

 

do milheirão
a companha se dizia
lagoa azul
do barco o nome

venceram o mar
não venceram o tempo
foi-se a companha
jaz o barco em terra
no barracão envergonhado
de não ter mais mar

barco em terra deixado
é madeira afeiçoada e decorada
mas jamais
lhe poderás chamar barco
que mar não vê já

foram-se os homens
a outras companhas o pão
ganhar
que esta é a vida de quem nasceu
para ser homem só se no mar

(praia de mira; companha do milheirão; 2009)

 

o chamado da xávega


henrique bastos

 
uma das características das companhas de xávega, na torreira, é a participação da juventude na faina.
 
começam miúdos, “canalha” ainda, como se diz na praia, e depois continuam nos períodos das férias escolares. alguns, mesmo se arranjam trabalho noutra actividade que não a pesca, é a ela que retornam em período de férias laborais.
 
o chamado da xávega e da ria são muito fortes. do mar para a ria e em sentido inverso, a pesca está no sangue desta comunidade.
 
(torreira, companha do murta, 2007)