é urgente


o pescador filósofo

ando por aí
no inventar de caminhos
encontros e desencontros
fabricando sonhos
nas noites diurnas

a acender fogos
no seio das rochas mais frias
para que nasçam rios cheios
de olhos abertos

a plantar árvores
em cima do mar
ver crescerem barcos
onde mais que homens são
os que lá dentro vão

na minha rede só letras
plantadas nos regos abertos pela enxada
desta cabeça imparável

acender lume nas pedras
abrir olhos nos rios

é urgente

(torreira; companha do marco; 2011)

xávega_o aparelhar


o saco

 
barco no mar, barco em terra, trabalho sempre.
 
neste registo podem-se ver as redes sobre a  “zorra” (espécie de maca de madeira, constituída por tábuas pregradas sobre dois rolos atravessados na face inferior), para não se encherem de areia, enquanto se começa a aparelhar o barco.
 
de notar que, neste caso, se começa pelo saco. o falecido arrais zé murta, carrega a extremidade do saco, que depois contornará a bica da ré para ficar abraçado nela.
 
(torreira, companha do murta, 2007)
 

xávega_do arribar (5)


agostinho tabalhito (canhoto)

 
ainda o barco vai de arrasto pelas areia e já começa uma outra faina, a do escoar a água que entrou no barco e areia que ficou depositada no fundo, deixada cair por calas e rede.
 
o agostinho trabalhito (canhoto) empunha um escoadouro de metal, mas que normalmente é de madeira ou, até, improvisado cortando garrafas de plástico de 5 cinco litros ou mais.
 
a este utensílio também se dá o nome “vertedouro” nas artes da ria.
 
(torreira; companha do murta; 2007)

xávega_do arribar (4)


olá sam paio_arribar

 
neste registo vê-se bem o falecido arrais zé murta, na bica da ré a segurar a cala “mão de barca” – corda que fecha o cerco e vem com o barco – laçada na bica da ré.
 
é ela que faz o fixe do barco e é através do deixar correr, ou prender, que o arrais vai deixando o barco aproximar-se de terra ou, como dizem os surfistas, “apanhar a onda” que o trará em segurança até terra.
 
por vezes, muitas vezes, são necessárias várias ondas para o conseguir. o arrais é então o verdadeiro mestre da “arte de bem arribar com qualquer mar”
 
(torreira; companha do murta; 2007)

xávega_o arribar (3)


a espera
o zé caravela e a marlene murta esperam, de ganchos na mão, o arribar do barco de mar que, pela postura e o olhar de ambos, estará para pouco.
 
este registo é o reconhecimento da marlene como mulher da torreira, sem quaisquer problemas de assumir tarefas que normalmente só aos homens cabem.
 
(torreira; companha do murta; 2007)

xávega, ainda o arribar


zé caravela
 
o barco aproxima-se de terra, está já à vista, em terra o pessoal prepara-se para as manobras necessárias ao “bom arribar”.
 
o zé, segura o cabo que tem na ponta o gancho que vai engatar no arganel da proa que, com outro camarada, com outro gancho, fará com que o barco se mantenha perpendicular à praia e seja rapidamente puxado pelo tractor.
 
delicada manobra esta.
 
(torreira; companha do murta; 2007)