o barco
enchem-se os homens
de mar
(torreira; companha do marco; 2010)
quando o mar é fêmea
enche-se o saco
de carapau
enchem-se os homens
de esperança
quantas vezes a morrer
breve na lota
onde os compradores
entre cafés e cigarros
aguardam o fruto do suor
para o beberem em copos de bom vinho
também no mar
há quem trabalhe e ganhe pouco
sendo de poucos
a riqueza que o mar dá
um saco em leque
com que se abanam os revendedores
isso é
(praia de mira; companha do fatoco)
foi tempo em que os bois. agora são os tractores que trazem e levam o barco pela areia fora.
quando o barco está muito longe do local ideal para sair e os tractores não são suficientemente fortes, são necessários dois para o arrastarem pela areia, como mostra este registo.
no tempo dos bois o barco era sempre arrastado sobre roletes – cilindros de madeira – o que tornava mais fácil o deslizar e menos pesado trabalho das juntas. hoje em dia, os roletes continuam a existir mas são frequentemente utilizados somente para poisar o barco, quando o são.
o arrastar directo do fundo do barco sobre a areia, provoca um desgaste mais rápido deste e a necessidade de o substituir com mais frequência.
nem tudo são vantagens, cada processo tem sempre duas faces.
(torreira, 2007)
aqui temos um exemplo em que se podem ver os ganchos já presos, mas com as cordas pendentes, a tracção ainda não foi iniciada e a demora fez com que o barco fosse colhido à ré, pela onda seguinte.
vê-se assim a importância da rapidez de execução deste procedimento, sob pena de poderem acontecer situações como esta, mais graves se a onda for maior ou ainda, em casos extremos, o barco dar de bordo.
lentos
corpos cansados caminham
em estranha procissão
que a areia acaricia
até ao estender do saco
a faina não termina
longo foi o dia
rude o mar
que homens são estes
coração de ave marinha
mãos de dar
mais que receber?
imensos
deixam na areia
a ternura
de mais um dia de mar
(torreira; companha do murta)