xávega
xávega_os ganchos de arribar
os barcos de mar, da pesca de xávega, têm à proa e à ré, fixos nos painéis laterais, dois aros de ferro, chamados arganéis, que servem para prender o barco e puxá-lo para terra, com rapidez, quando arriba.
a tracção é feita pela introdução de dois ganchos, um em cada arganel, que se ligam por corda ao tractor, hoje, às juntas de bois, noutros tempos.
a inserção dos ganchos nos arganéis é feita por dois pescadores experimentados, porque tem de ser rápida e com precisão. não vá o barco rodar e esmagar-lhes as pernas – o que não seria a primeira vez.
a perigosidade do procedimento, pode ser observada pela rapidez com que é executada e pela forma como os executantes correm, fugiondo das proximidades do barco após terem desempenhado a sua tarefa.
(torreira)
ir ao mar
em quase todas as praias onde ainda se pratica a pesca artesanal de xávega, há mais do que uma companha.
o barco larga perpendicular à praia e, no mar, toma uma de duas direcções: ou continua na perpendicular e segue mar adentro, ou abica ao norte e depois vira para o largo, para lançar as redes sem interferir com as outras companhas.
muitas foram, em tempos idos, as guerras por causa da partida, o primeiro a partir largava como queria e, frequentemente interferia, impedindo de partir os barcos de uma ou mais companhas que ficavam a ver onde era largada a rede, para saberem como traçar o rumo. foi, inclusivamente, necessário estabelecimento de regulamentos para a largada dos barcos, isto para evitar “verdadeiras batalhas campais” em que os bordões se transformavam em varapaus.
há ainda a limitação, na época balnear, da área definida pelas autoridades para os banhistas e dentro dos quais as redes não podem entrar.
tudo isto o arrais toma em conta na definição do rumo que vai tomar, considerando ainda o último lanço e os resultados obtidos – regresso ou evito- e eventuais escolhos no fundo que possam romper as redes.
(torreira, companha do murta, 2006)
xávega_do largar (II)
longe vão os os tempos em que o francês françois dennis escrevia: ” estranha terra esta onde os bois vão lavrar o mar” (citado por raul brandão, in “os pescadores”).
onde hoje os bois na agricultura? então, porquê no mar?
os tempos trazem consigo a mudança e é neles que vivemos. hoje o trabalho pesado que antes era feito por juntas de bois, é coisa de tractores, frequentemente comprados em segunda mão no ribatejo ou além tejo.
e sim, os tractores vão lavrar o mar, ei-los.
o que poucos sabem é que para trabalharem na areia e no mar, os pneus não são cheios com ar, mas sim com água.
o tractor empurra o barco até onde puder, garantindo o máximo de firmeza, segurança, ao largar, por ventura até o barco ganhar calado e o motor poder ser accionado.
(torreira; companha do murta; 2006)
o caminho das ondas
xávega_do largar (I)
que sustem o homem?
tempo de ser pescador
é tempo de mar
será tempo de peixe
se peixe houver
é tempo de homens
tempo de ser
mesmo que peixe
não venha
mesmo que o saco
nada tenha
têm os homens
o saber que vão
sem saberem o quanto são
pois é deles natural
serem-no assim
é tempo de mar
é tempo de ser
pescador
(praia de mira; companha do zé monteiro)
quando o mar trabalha na torreira
quando o mar trabalha na torreira
atentos olhos
escutam movimentos
esperam a voz
a ordem o mando
tensas as cordas
fechado o cerco
as redes iniciarão
o regresso
maestro desta música
o arrais olha o mar
sente as correntes
no deslizar das bóias
na sinfonia das redes
os andamentos
é o mar que os dita
o arrais quem os traduz
assim aprendi
música
neste areal de luz
(torreira; século XX)









