crónicas da xávega (81)


se te apanho

a condução da manga

a condução da manga

deixaste os portugueses atrás
na fuga precipitada para o abismo
empurrado por uma europa
a que só resta um eu no centro
solidário consigo mesmo

deixaste os portugueses atrás
destruíste lares laços afectos
semeaste desespero fome abandonos
encheste os bolsos de alguns
fazendo deles o país não o povo

não me digas que depois de tantos
atrás deixares esquecidos que foram
menos no esbulhar dos haveres parcos
depois de tanto teres feito para tão poucos
a troco de trinta dinheiros embolsados
vigarices muitas falta de princípios basta

não me digas
portugal à frente
que à frente irás tu
tenha o povo memória
saibam as gentes o que querem

portugal à frente
e eu atrás de ti

se te apanho

a mão fechada sobre

a mão fechada sobre

(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (75)


continuo a caminhar

a grandiosidades do pescadores, mesmo se nas mais humildes tarefas

a grandiosidades do pescadores, mesmo se nas mais humildes tarefas

admiro os que a palavra vestem
como se coisa de usar fosse
consoante o momento o local
a audiência

admitem a inexistência da memória
julgando-se senhores do saber
do dizer e fazer constar

curvam-se perante eles os que
pretendendo vir a ser
mais não serão
que o terem sido úteis  quando

vivem todos de ilusões
sorrio e continuo a caminhar

o meu amigo horácio, de poucas palavras, mas todas acertadas

o meu amigo horácio, de poucas palavras, mas todas acertadas ( a porfiar o saco )

(torreira; companha do marco; 2012)

crónicas da xávega (72)


o meu amigo alfredo amaral

o meu amigo alfredo

o meu amigo alfredo

o tempo vai-se escrevendo
o nome dos amigos
os que partiram
os que ainda resistem
os que já não podem

escrevi o teu nome
alfredo quando menino ainda
vinhas para o mar
com a tua mãe e foi na areia
onde brincavas
que aprendeste a conhecer a arte

durante anos
mestre do reçoeiro
camarada de muitos
amigo de todos
mais um na companha
indo sempre para além
do que pensávamos
poderes dar
o ti américo que o diga
o marco que o negue

companheiro
ficas agora em terra
a olhar o mar

sei como te deve doer
mas doía-te mais o fazer

espero-te sempre a sorrir
a inventar um homem dentro
da criança grande

o mar ao pé de ti alfredo
é tão pequenino

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(torreira; companha do marco; 2013)