ser ave
sonhar as asas
o voo
ser barco
casa de homens
a casca
amanhã
quando eu já não for
os outros
a memória
(praia de mira; barco de mar “lagoa azul”)
o abraço
desenhar as palavras
à altura da vaga vencida
será tarefa árdua
chegar onde estes homens
dizer deles o que
sem saber coo chegar até
escaldante como a areia
o pensar ser
morrer na praia é desejo
viver no mar é urgente
o abraço
(torreira; companha do marco; 2014)
perde-se no longe do tempo
o haver mar
tarde chegou o homem
a estas praias
trazido por caminhos
perdidos por aí
cedo venceu o medo
não fora homem
cedo ganhou o mar
não fora gente
cedo comeu o estranho pão
não tivera fome
resistem ainda alguns
em praias quase desertas
abandonados à sua sorte
pelos donos da terra
eles que vencem o mar
que não temem o medo
morrem nas secretarias
assassinados por burocratas
perdem-se no tempo
sobrevivem
(praia de mira; companha do zé monteiro)
escorregar pelos dias
deitado no chão herdado
imóvel
quase não vivo
quase
tão fácil não ser
tão fácil o sim a todos
tão cómodo
sentado na soleira da porta
qual gato à espera da festa
que festa poderá haver
nunca se sabe
os mortos agradam a todos
porque estão
e tu?
(torreira; companha do marco; 2012)