crónicas da xávega (23) – dos homens do mar


agostinho trabalhito e massa

agostinho trabalhito e massa

fizeram a escola sentados
nos bancos de areia rente ao mar
aprenderam cedo a força das ondas
o gume afiado do norte pela madrugada
o salgado sabor dos dias amargos de pouco pão

a escrita que conhecem é sobre água
nem por isso efémera
que de geração em geração
de homem para homem
como se ontem fosse hoje e sempre
o mar é pauta onde ritmos e pausas
são marcados pelas notas das ondas
onde o maestro é o arrais

falo do mar
da música fora dos búzios
dos artistas
das companhas da xávega

bota que chega de palavras

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(torreira; companha do marco; 2011)

crónicas da xávega (22)


no bordão, o peso da manga o ombro sustém

no bordão, o peso da manga o ombro sustém

traz no nome o início
a força de tudo poder ser
onde o mar e a areia
se encontram sem medos
numa fronteira breve
de espuma agonizante

em dias de haver mar
é ainda noite quando o arrais
e todos na praia à espera
ela mais um mais um mais
braços pernas corpo

conheço-lhe o riso
a linguagem franca das mulheres
que fazem vida do mar
a ternura com que fala dos filhos
a força com que compete com os homens
e vence o mais das vezes

cuida do dia
aurora
(torreira; companha do marco, 2014)

ah mar


braço aberto ao mar, o maria de fátima espera

braço aberto ao mar, o maria de fátima espera

sem porto nem cais
areal onde varar
procurar na memória
nas imagens retidas
um poiso um lugar

barco sem terra
condenado ao mar

resta
esperar a onda
o instante exacto
largar

ganhar o longe
ser poiso de gaivotas cansadas
sorrir à espuma

o que há para além de mar?

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(torreira; companha do marco; 2011)

crónicas da xávega, torreira (21)


pelo mar adentro

pelo mar adentro

(para o alfredo amaral)

há um perto longe
por dentro das palavras

amigo tem
m de mar
a de alfredo
o de ondas

há uma mão estendida
um abraço
uma onda que não morre
na praia dos dias
longe do mar

dás-me o que te não posso dar
o sorriso da memória
dos dias vividos ao pé do mar

há homens assim
que não vencendo as ondas
por ficarem em terra
vencem a geografia
e se excedem de tanto

a criança fez-se homem
o jovem envelheceu
a amizade nunca aprendeu
a linguagem do tempo

hoje vieste ter comigo

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(torreira; companha do marco; 2012)

ao mar


o meu amigo agostinho

o meu amigo agostinho

( entre amigos:

 – agostinho, quando eu morrer as minhas cinzas vão para o mar, vão no maria de fátima
 – oh! cravo, nesse dia não vou ao mar. não te quero ver. )

regresso ao mar
regressarei sempre
mesmo quando
do regresso regresso não houver
e tudo não for mais que sal e água

os dias passam
de tanto passarem
passado que chegue já haverá
amores amigos ódios paixões
estórias quanto baste
no cozinhado apurado de ter sido

não esperem por mim
os que já foram
não se despeçam
os que cá ficam
vivam vivam vivam muito

o mais é não haver mar
(torreira; companha do marco; 2013)

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da cidade com o mar em fundo


horácio

horácio

as paredes não são quatro
enganaram-te quando da casa
to disseram
esquece os números
a parede é imensa e dentro dela
acontece e desacontece

um mundo fechado
onde os sorrisos crescem
e a vida se consome
numa solidão a que poucos

lembro-me agora do mar
e de como até as viagens por dentro
são partilhadas por todos

a cidade é um povoado de solidões
escondidas entre paredes

as casas são o disfarce perfeito
para a alegria das ruas

hoje está sol nas ruas

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(xávega; torreira; companha do marco; 2011)

ainda há sol


xávega: o arribar da mão de barca

xávega: o arribar da mão de barca

não sei que te diga hoje
senão o inventar de mais um dia
em que tu e eu fomos
memórias muitas nossas onde?

semeámos os dias de nós
semeaste-me de ti

caminhas agora a meu lado
e sou eu quem te dá a mão
te ensino o por onde
te digo o como

vem
ainda há sol e caminho
para andar
(torreira; companha do marco; 2011)

o arribar da mão de barca

os afectos e as malhas


o agostinho e o porfio a fechar o saco

o agostinho e o porfio a fechar o saco

mandei escrever no braço
o amor por ti
não esqueço
nunca esquecerei
és-me enquanto me for
eu aqui pescador

tece o tempo
as malhas que os afectos
acolhem

malhas largas
os deixam ir sem saudades de
outras miúdas são
nelas se guardam os mais caros
os mais perto do coração

quem amiúda
as malhas alargadas?

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(torreira; companha do marco; 2011)