fala da areia


 

o aparelhar das redes; torreira; companha do marco; 2011

o aparelhar das redes,  torreira, companha do marco, 2011

 

 

pergunto à areia como resiste
à fúria invernal do mar
e continua aqui
leito de homens barcos artes

diz-me que do mar filha é
sempre foi
e um dia a ele retornará
destino de

fala-me me dos homens
das máquinas
que passado o inverno
a que foi poupada
a vêm roubar
para destinos que não seus

diz-me que histórias
muitas haveria para contar
mas é tarde
muito tarde
o sol queima

a areia arde

 

o aparelhar das redes: as mãos


 

 

aparelham-se as redes

aparelham-se as redes

as mãos falam com os olhos
dizem-se o como
por onde
caminhos de artes ancestrais
refeitos

as redes sofridas de tanto mar
descansam o serem assim
nestas carícias breves

não há mãos rudes
nem caminhos de pedras

há homens
artes e mar

o tempo calou-se para
ouvir o norte

colori tudo para que saibas
a xávega
é oiro que nas tuas mãos
os olhos entregam

leva-a

 

(torreira; companha do marco; 2011)

mãos de mar


 

o aparelhar das redes

o aparelhar das redes

 
como se criança
a rede pelas mãos
guiada e acarinhada

amor outro desta vida
de mar feita

como se mulher
abraçada
amantes antigos
de muito juntos serem
entrega-se

juntam-se
onde a vida se faz
aí se quedam
se reencontram
e são

mãos de rede
mãos de mar
de amar

mãos

 

(torreira; companha do marco; 2011)

quem somos nós?


 

 

o maria de fátima

o maria de fátima

quem somos nós?
que tão pouco contamos
a não ser para as contas dos que
contos nos contam de encantar
quem somos nós?

que gente é esta que ganha ao mar
para perder em terra?

flores no peito vermelhas em abril
secam o ano inteiro em jarras
de fato e gravata
decorando salas onde se passeiam
camaleónicos figurantes

quem somos nós
que deixamos de ser
para sermos o que querem?

vencer o mar
não é vencer na vida

 

(torreira; companha do marco)

aparelhar


 

os braços encaminham a manga

os braços encaminham a manga

 

na zorra as mangas e o saco secos, estão prontos para serem de novo carregados no barco e ao mar retornar.

o lanço começa agora, no aparelhar (dispor redes e cordas no bojo do barco).

“quem vai ao mar avia-se em terra”

os homens que vão ao mar, são os que sabem do aparelhar, na areia carreiam as redes, para os que dentro do barco as acomodam como manda a arte.

braços e mãos são caminhos.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

as novas muletas


 

o maria de fátima vai fermoso e seguro

o maria de fátima vai fermoso e seguro

 

o barco entra agora no mar, apoiado numa estrutura rígida, as 2 muletas fixas nas cápsulas metálicas, e deixou de ser necessária a regeira.

note-se que, pela mão do arrais, começa a sair o reçoeiro e, ao fundo, a rebentação no “cabeço” – praia, lago, cabeço.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

do hoje


 

 

torreira, havia bois no mar

torreira, havia bois no mar

faz-se a memória
do ser e do sentir
do estar e do ter estado
do querer e do saber
todo o dia será memória
se memória do dia se fizer

és o que foste
serás o que és
em ti nada começa
e nada acaba
és apenas tu

nunca apenas foi tanto

contamos contigo
para continuarmos a ser
mais que memória lembrada
a vivida sentida sabida

vida
(torreira, no tempo dos bois, a memória aqui)