uma vez na xávega, sempre na xávega


 

 

 

 

a carregar a rede para zorra está o joão bastos ajudado pelo carlos tavares, o alfredo amaral faz uma pausa

a carregar a rede para zorra está o joão bastos ajudado pelo carlos tavares, o alfredo amaral faz uma pausa

 
poderia ser esta uma definição das gentes da torreira: da ria ao mar, do mar à ria, de portugal para outros mares, outras terras.

gente de andar, mestres em barcos de pesca longínqua, em frotas de outras países, emigrantes onde o trabalho compensa, os pescadores da torreira quando regressam a férias, só conhecem um caminho: aquele onde passaram os melhores e piores da sua vida, no mar a trabalhar na xávega.

o tempo passa salgado

 

(torreira; companha do marco; 2010)

o tempo passou e…. está quase


pancada de mar no cabeço

pancada de mar no cabeço

 

o tempo de estar aqui convosco, em 2010, está a chegar ao fim.

a safra continuará até que o mar deixe

as imagens ficarão por mais tempo. a memória vai-se fazendo.

estamos quase a deixar que a geografia nos separe.

levar-vos-ei e sei que fico.

uma poucas mais e….

 

 

(torreira; companha do marco; 2010)

o estender do saco


 

 da esq. para a dir. joão pequeno, cebola, vitor caravela e na boca do saco o nicole


da esq. para a dir. joão pequeno, cebola, vitor caravela e na boca do saco o nicole

 

hoje 25 de abril de 2014, 40 anos depois do dia da revolução dos cravos, quero dedicar esta foto a todos os que sempre souberam trabalhar em conjunto: as companhas deste país, sejam de mar, sejam do campo.

não tenho quaisquer pretensões como fotógrafo ou como escrevedor de coisas, mas tenho uma ambição que ao longo dos anos espero ter vindo a cumprir, a divulgação da xávega e daqueles que a ela se dedicam.

com eles alguns dos melhores momentos da minha vida, entre eles as minhas raízes, por eles estas fotos, estes conhecimentos que tenho procurado transmitir, os rostos levados pela net às famílias emigradas.

por isso, espero que tenha vindo com a qualidade mínima do meu trabalho  – para uns talvez demasiado repetitivo -, a prestar-lhes a merecida homenagem e dar a conhecer a um outro público o seu labor.

para o que sei contribuíram pescadores da praia da torreira, com os seus conhecimentos da arte, que se mostraram sempre dispostos a identificar os pescadores que constavam das fotos e me permitem ir construindo uma galeria de rostos com nome.

porque escrevo isto hoje? porque me apeteceu e para que conste
(torreira; companha do marco; 2010)

nicole e o carapau


nicole

nicole

 

 

está a acabar a minha safra fotográfica do ano de 2010, os momentos aproximam-se do fim. foram muitos, mas este é um dos que mais me toca.

o nicole veio da ucrânia em busca do oiro português, como muitos seus compatriotas trabalhou nas construção civil, sem contrato, sem horário, sem condições.

até que um dia, os músculos cederam ao martelo compressor e o braço ficou incapaz de contribuir para a sua subsistência na construção civil.

veio para a torreira onde, dizia ele, tinha encontrado entre os pescadores uma nova família. vi-o sempre bem disposto porque era verão.

2010 foi o seu último ano em portugal, regressou à ucrânia e pouco tempo depois morreu.

entre nós ficaram laços de amizade selados pelo mar e seus frutos.

por mais que fale do nicole, nunca digo tudo, porque nunca sou capaz de me despedir dele, continua a sorrir e a estar aqui.

 

 

(torreira; companha do marco; 2010)

recriação da xávega; praia da vagueira, 2008


 

juntas de bois na praia da vagueira

juntas de bois na praia da vagueira

 

neste registo feito em 2008, na praia da vagueira, com a companha “o vencedor”, notam-se as seguintes características na junta de bois em primeiro plano:

 

– a canga é gandaresa, pequena e sem as decorações ricas das cangas vareiras

– os bois pequenos, demasiado para a tarefa que lhes é pedida (maiores os marinhões, bois de força criados para trabalhos pesados)

 

são estes pequenos pormenores que permitem identificar o onde e o como a memória é recriada.

 

(praia da vagueira; 2008)

a alegria da xávega


 

da esq. para a a dirt: vitor caravela, alfredo amaral e rui

da esq. para a a dirt: vitor caravela, alfredo amaral e rui

 

um momento raro em que todos se juntam para o mesmo prazer: a xávega

o vitor, o alfredo e o rui, representam o abraço no mar, dos jovens, sejam eles portadores de deficiência ou não.

ao rui, de costas na fotografia, portador de uma deficiência mental algo profunda, não há maior alegria do que poder ajudar nos trabalhos do mar.

a alegria que foi para ele ir um dia ao mar, ler-lhe essa alegria no rosto, foi um dos momentos mais belos a que assisti.

 

(torreira; companha do marco; 2010)