as palavras são a minha
torreira; 2009
a primeira fase de qualquer lanço de xávega conclui-se com o arribar do barco. perigoso o largar, só com muita coragem e saber se consegue, largar as redes no sítio certo e trazer peixe no saco conclui o lanço e torna-o “bom” ou “mau”.
vem isto a propósito da aprovação, por unanimidade, na assembleia da república, no passado dia 7 de junho de uma recomendação, cujo resumo transcrevo da “visão online”, até se encontrar disponível na página da assembleia da república o texto definitivo.
“Parlamento pede regime de exceção para pesca por arte xávega
Lusa – Esta notícia foi escrita nos termos do Acordo Ortográfico
15:13 Sexta feira, 7 de Junho de 2013 |
Lisboa, 07 jun (Lusa) – O parlamento aprovou hoje por unanimidade um projeto de resolução recomendando ao Governo que peça à União Europeia a criação de uma exceção para a pesca por arte xávega, permitindo-se a venda de peixe de tamanho abaixo do permitido.
A posição – que resultou de uma articulação entre todos os partidos, à exceção de “Os Verdes” – pretende ainda que seja possível a venda do produto do primeiro lanço de tamanho inferior ao legalmente permitido (12 centímetros, no caso do carapau).
Atualmente, os pescadores devem devolver ao mar o peixe de dimensão reduzida – já morto – e aguardar pela mudança de maré para reiniciar a atividade. O que o parlamento agora defende é que esse peixe, mesmo, possa ser vendido de imediato”
depois do modo de actuação, quase persecutório, das autoridades marítimas no ano ano passado em relação às capturas da xávega, conforme aqui foi relatado- https://ahcravo.wordpress.com/2012/07/17/querem-matar-a-xavega/_, o presidente da câmara municipal de mira, dr. joão reigota, tomou a iniciativa de juntar pescadores de toda a costa e representantes do grupo parlamentar do partido socialista, tendo em vista sensibilizar a comissão parlamentar de agricultura e mar, para a situação vivida pelo sector.
em simultâneo era criada a associação portuguesa de xávega (APX) e eleito presidente o arrais da praia de mira, josé vieira.
dava-se início a um processo que envolveu pescadores e autarcas, de espinho à caparica, e todos os partidos com assento parlamentar.
depois de debate na comissão parlamentar sobre as propostas dos partidos, no dia 7 de junho foi aprovada por unanimidade na comissão, e posteriormente no parlamento, a recomendação, cuja notícia se transcreve e que, segundo o informado, satisfaz, na minha modesta opinião, as aspirações dos pescadores e consigna o procedimento tradicional – se no primeiro lanço do dia predominar o peixe miúdo (jaquinzinhos, na sua maioria), a pesca é suspensa até à maré seguinte, não se realizando mais de 2 lanços por dia, sendo o peixe vendido e não destruído.
resta agora ao governo, com base na recomendação aprovada, e apoiado por todos os deputados portugueses no parlamento europeu, solicitar à comissão europeia que seja contemplado, em sede regulamento, o regime de excepção aprovado pelo parlamento português.
retire-se daqui uma lição: quando as vontades se unem e os homens lutam pela defesa dos seus interesses legítimos e históricos, é possível fazer um lanço.
o saco ainda não chegou a terra, não se sabe se o peixe é muito ou pouco, mas o barco, esse já arribou e todos, homens de terra e de mar, estão de parabéns, formaram uma companha ganhadora.
mais uma vez o mar foi vencido.
vê-se à ré, a estibordo, o reçoeiro a sair do barco, agora será a sorte a decidir se as redes virão cheias de peixe ou de muita pouca coisa.
uma e outra vez o s. pedro se fará ao mar e, a cada lanço, o arrais mostrará como ganhar estas batalhas diárias e como é merecedor da confiança da companha.
nestes registos ainda era vivo o arrais zé murta e é ele que se vê no castelo da ré.
(torreira; 2009)
sucedem-se as ondas com frequências variáveis, 3,5,7, 9 …… entre cada sequência um momento breve de intervalo: o liso.
como me contou o arrais russo da cova gala, com frequências superiores a 7, dificilmente o barco se faz ao mar, pois o liso não é suficiente para o barco furar a barreira de mar.
é esta a primeira leitura que o arrais faz quando, noite ainda, assoma à duna e ouve o mar, ao ouvir lê-o e só um bom arrais sabe ler o que o mar escreve no ser das ondas.
(torreira; 2009)
este é o primeiro registo de uma série que acompanha o barco a vencer o mar, depois de ter sido antecedida por todos os preparativos, para que tudo ocorresse no momento certo e nas melhores condições de segurança.
nos castelo da ré o falecido arrais zé murta, vai controlando o andamento do reçoeiro, travando-o, ou libertado-o, de acordo com o mar a vencer
(torreira; 2009)
foi tempo, ti antónio
mais um verão
em que demos os sorrisos
palavras poucas
mar tanto
peixe algum
foi tempo, ti antónio
cerra-se agora a névoa
sobre a praia
e só a memória tudo aclara
foi tempo, ti antónio
guardo ainda o abano de penas de gaivota
feito em dias de menos mar
pendurado na corda da roupa
à espera de quem passe e queira comprar
guardo mais, ti antónio
guardo um sorriso de criança
nuns olhos azuis
perdidos sempre mais além
além onde você agora
ti antónio
além ao pé de nós
(torreira; companha do marco; 2009)