recusa a terra
dono ter para além
de ser ela tudo
todos
terra e tempo
confundem-se no seres
tu aqui mais um
tão só
aceita o instante
em que és
fruto e terra
adubo serás
(cais do bico; murtosa)
inicia-se hoje a publicação de um artigo da autoria da dra ana maria lopes, autora do livro “Moliceiros”.
O barco moliceiro, ex-libris lagunar
Que barco da colecção do museu caracterizar, este ano, em que o tema da revista ARGOS é «Os museus marítimos e a herança cultural»? – o barco moliceiro.
Obra de arte da construção naval lagunar, elegante de formas, sedutor, ágil e veloz na arte de velejar, adaptado à apanha do moliço como nenhum outro – era assim o moliceiro.
Actualmente, é considerado quase uma peça de museu, visto que, no nosso espaço lagunar, já não tem razão de existir para a actividade do moliço a que se dedicava – rapar, arrancando sempre à ria, os seus finos cabelos enquanto verdes, nos enormes ancinhos trilhados entre forcada e tamanca.
A construção pelo Mestre António Esteves, de Pardilhó, no ano de 2001, do barco moliceiro em exibição nesta instituição foi a concretização de um desejo antigo. Só a estrutura arquitectónica deste edifício a permitiu realizar.
É (era) -1 – uma embarcação bem adaptada à actividade que exercia e às condições geográficas e climáticas da zona em que actuava. Com os seus 15 metros de comprimento, 2,50 a 2,70 metros de boca, e 40 a 45 centímetros de pontal, navegava facilmente em pouca água.
Noutros tempos, ainda utilizava, a reboque, a ladra, pequena bateira auxiliar, para o carregamento e transporte do arrolado colhido em praias onde o moliceiro não podia chegar.
Para a construção deste barco, não há planos complicados, nem cálculos difíceis, nem alçados, nem cortes. Tudo nasce como que por magia ou segredo, ou antes, por saber de experiência feito, a partir de um pau de pontos, vara quadrangular com 1,50 m de comprimento que tem marcadas, por incisão, todas as medidas necessárias à construção.
Constitui uma rudimentar régua de cálculo, ajudada por um vulgar cordel.
Em auxílio vêm ainda as formas ou moldes, que alguns ex-construtores guardam religiosamente: roda da popa, forcado da proa, forcado da popa, ponta da proa, papo da proa, roda da proa, vertente, ponta da popa, caverna e leme.
-1- A alternância entre o uso do verbo no passado e no presente tem a ver com a existência actual de meia dúzia de embarcações que ainda se exibem em regatas ou passeiam turistas, em ria aberta, à vela, sofrendo pequenas alterações (adulterações). Se necessário, para estes efeitos, ainda se constrói.
(a continuar)
(torreira; regata de s. paio; setembro, 2014)
escorregar pelos dias
deitado no chão herdado
imóvel
quase não vivo
quase
tão fácil não ser
tão fácil o sim a todos
tão cómodo
sentado na soleira da porta
qual gato à espera da festa
que festa poderá haver
nunca se sabe
os mortos agradam a todos
porque estão
e tu?
(torreira; companha do marco; 2012)
a ilha do amoroso, uma das três grandes ilhas existentes na ria de aveiro – monte farinha, testada e amoroso -, era propriedade do meu tio avô césar cravo (também conhecido por césar gorim), arcênsio cunha e antónio silva, todos relacionados por parentesco entre as esposas.
quem fazia o pagamento aos moliceiros era o meu tio césar, o que me permitiu assistir a uma das mais belas cenas da minha juventude: o pagamento semanal aos moliceiros e mercantéis.
todos os domingos, no fim da missa, com a “roupa de ver a deus”, os donos dos barcos dirigiam-se a casa do meu tio avô, que os esperava à porta, na eira, com uma garrafa de vinho fino, um cálice e um saco de pano. um a um iam chegando e cada um dizia: sr. césar são tantas barcadas de moliço, tantas de arrolado, tantas de junco, o que dá… e o pagamento era feito para dentro do saco e anotado.
havia dois tipos de moliço: o que era apanhado no fundo e o que andava à superfície da ria (arrolado), tinham preços diferentes, o primeiro era mais caro.
o junco, era apanhado em terra, com gadanhas, e carregado por mercantéis ou moliceiros.
ambos serviam para adubo, embora o junco fosse utilizado para fazer a cama dos currais, a nas “casinhas” ….. antes de ser usado como adubo.
MOLICEIROS SEMPRE!!!!!!!!
(ria de aveiro; s. paio, setembro, 2014)
mais que eu
sou todos os que antes de mim
acrescentaram páginas ao livro da memória
deixaram-me o recebido
distribuo-o
o que resta do ter sido
o ser eu aqui inquieto
enquanto
quebro o vidro atravesso-o
firo-me sangro toco tudo
até onde
estou vivo
(torreira; marina dos pescadores)
dos moliceiros e do moliço
até meados da década de 60 do século passado, os montes de moliço cobriam todo cais do bico.
segundo os dados coligidos pelo comandante rocha e cunha, no livro ” notícia sôbre as indústrias marítimas na área da jurisdição da capitania do pôrto de aveiro” (1938, gráfica aveirense)
“ …. em 1938 existiam na ria 1750 moliceiros, que rendiam 3.600.000$00.
pesca lagunar no mesmo ano:
nº de pescadores- 1.255; nº de redes – 1.354; rendimento – 1.981.582$00.”
percebe-se assim a importância que o moliço tinha na economia da ria de aveiro.
era tal a quantidade apanhada que houve que estabelecer um período de defeso, correspondente ao da desova e criação dos peixes que escolhiam a ria como maternidade.
(torreira; regata s. paio, setrembro, 2014)
esta foi uma das duas fotos, ” a escolha da redacção”, a publicadas na revista “national geographic portugal”, no número de dezembro, já nas bancas
a legenda da foto, da responsabilidade da redacção, é a seguinte:
Ahcravo Gorim Aveiro, Portugal
Uma regata de moliceiros na ria de Aveiro foi o pretexto para o fotógrafo utilizar o preto e branco como técnica dramática. Ahcravo Gorim, deu o título à imagem: “Não deixem morrer os cisnes da ria ”
depois do meu post de ontem sobre o que poderá vir a ser, ou já será, a nova “marca/imagem” do município da murtosa (a pátria do moliceiro), e o modo como decorreu todo o procedimento que conduziu à sua elaboração, a publicação desta foto, na revista national geographic portugal, acho que fala por si.
o tempo/a história, escreverá com letras de pedra, a triste estória que relatei, e não esquecerá os seus autores.
relembro uma frase célebre: “roma não paga a traidores”.
VIVAM OS MOLICEIROS !!!!!!!!!!!!!!

o moliceiro “cristina e sara”, do ti virgílio, é de tamanho inferior ao de um moliceiro tradicional, mas como ele há pelo menos 4 a vogar nas águas da ria
reconheço-lhe a elegância
no fino traço dos mestres construtores
a tradição inscrita na beleza
com que vogava e ainda voga
nas águas da ria
passou o tempo do adubo natural
do moliço colhido no fundo da ria
broa de milho comida à mesa
com sabor a maresia
foi o tempo do trabalho da ferramenta
não foi o fim do tempo
mas o começo de uma nova aventura
a do amor por ti pelo que foste pelo que és
o da preservação da história de um povo
o murtoseiro
não te quero num canto qualquer coberto de pó
abandonado pelos que ajudaste a crescer
pelos falsas manifestações verbais de afecto
não quero sequer que te façam um retrato novo
onde já não moras porque nunca foste
para melhor venderem o que já não têm
quero-te assim
um moliceiro à maneira

há cerca de 60 anos, no cais do bico, na murtosa, o meu pai fotografava-me com moliceiros em fundo. entendem?
era uma vez … a história da nova “marca” do município da murtosa.
foi assim …. no dia 20 de novembro reuniu o executivo e …
extracto da acta da reunião de 20 de novembro, de 2014, do executivo da cm murtosa
<<——- PEDIDO DE PARECER PRÉVIO VINCULATIVO PARA A AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS DE “CRIAÇÃO DA MARCA INSTITUCIONAL DO MUNICÍPIO DA MURTOSA” – Foi presente uma informação do Sr. Presidente da Câmara, datada de 17 de novembro de 2014, através da qual propõe que, no cumprimento do preceituado na Lei do Orçamento de Estado para 2014 (Lei n.º 83- C/2013, de 31 de dezembro), a Câmara Municipal emita parecer prévio vinculativo favorável ao procedimento que se pretende iniciar para a Aquisição de Serviços de “Criação da Marca
Institucional do Município da Murtosa”.
——–A Câmara Municipal, depois de analisar a informação, supra citada, deliberou, por maioria, com o voto contra do Vereador Jorge Bacelar e os votos a favor dos restantes membros do Executivo, emitir parecer prévio vinculativo favorável ao procedimento que se pretende iniciar para a Aquisição de Serviços de Aquisição de Serviços de “Criação da Marca Institucional do Município da Murtosa”.——————————————————————
– O Sr. Presidente da Câmara no uso da palavra esclareceu que o que está em apreciação não é a marca mas sim a necessidade de pronúncia prévia da Autarquia para poder acolher o encargo resultante das tarefas que estão a ser desenvolvidas. Esclareceu, ainda, que o trabalho a cargo da empresa Artifex não se encontra concluído, alias a marca que foi, admite-se divulgada com excessiva antecedência, é apenas uma pequena parte do trabalho que terá que ser desenvolvido e que suportará as diversas formas de comunicação/apresentação da autarquia, assim não se vislumbra nenhuma irregularidade no processo de adjudicação da respetiva prestação de serviços dado que a autarquia não assumiu qualquer encargo com o trabalho que terá de ser desenvolvido.————>>
qual não é o espanto, em relação a este ponto da acta, quando no dia 6 de novembro de 2014, no facebook, na página da Artifex Design, se escrevia:
“A Murtosa tem nova Imagem! A Artifex foi responsável pelo seu Re-Branding e toda a comunicação adjacente. Aguardem por novidades que virão em breve. Ainda não demos tudo por estas bandas!
Agradecimentos: – Município da Murtosa “
e a nova imagem era :
ainda no facebook, a página do Município da Murtosa, ostentava a nova “marca”
https://www.facebook.com/municipiodamurtosa?fref=ts
ou seja, na acta da reunião de dia 20, foi “presente” uma “informação” do “Sr., Presidente” na qual se pede que “a Câmara Municipal emita parecer prévio vinculativo favorável ao procedimento que se pretende iniciar para a Aquisição de Serviços de “Criação da Marca Institucional do Município da Murtosa”,enquanto já no dia 6 do mesmo mês uma empresa agradecia à câmara municipal e apresentava a nova “marca”.
transparência maior não pode haver! primeiro entrega-se o trabalho, a empresa até o divulga, e depois pede-se autorização para iniciar o processo.
e esta hein?
Assim vamos por cá
………….
– para ver a acta na totalidade
– e anexos
http://www.cm-murtosa.pt/cache/files/XPQLiuwXX15950LqqCfurl2dZKU.pdf
– o que já escrevi sobre a nova “marca”
https://ahcravo.wordpress.com/2014/11/08/uma-imagem-tem-sempre-pelo-menos-uma-mensagem/