cai a noite


 

no vulgar descrever das coisas

cai a noite

 

uma guitarra celebra paredes

enquanto na lama da ria

uma mulher morde a sobrevivência

na apanha de amêijoas onde já ninguém

 

a miséria mais dura

convive lado a lado com a beleza da música

criando uma atmosfera de irrealidade insuportável

 

no vulgar descrever das coisas

cai a noite

quisera saber como acolhê-la

limito-me a ser


 

não te peço que entendas

sequer que gostes

daquilo que escrevo

 

como

se nem eu

por vezes?

 

sinto apenas

por isso escrevo

tenho de escrever

porquê?

porque tenho

 

não me questiones

sente apenas

ou não sintas

que sei eu de ti?

 

as palavras existem

para além de mim

sou nelas

um outro e o mesmo

 

não peço que me entendam

não peço nada

limito-me a ser

recriação da xávega, espinho 2013


os fotógrafos, horácio graça e manuel oliveira

os fotógrafos, horácio graça e manuel oliveira

quando se fala em recriação da xávega o imaginário enche-se sempre com imagens das juntas de bois que, não muitos anos, puxavam bois e barcos.

foi essa aproximação ao passado que se renovou no dia de s. pedro em espinho.

muitos foram os amantes da fotografia que vieram registar a recriação que, por mais defeitos de aproximação que possa ter, é sempre um momento de forte emoção.

 

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a minha gente


 

vêm de longe
de onde a fronteira entre luz
e sombra
era ainda o princípio de tudo
de ti de mim de nós
como se parados no tempo
são o próprio tempo
esperando ser mais tempo ainda

vê-los é entrar em casa
sem nunca ter saído
as manhãs são aqui infinitas
têm a dimensão da memória
aconchegada no regaço
da mãe-terra

vêm de longe
permanecerão para sempre
são a minha gente

 

para ver:

 

 

parceria jorge bacelar (vídeo e fotos)/ahcravo (palavras)