são ainda
o meu sorriso
nos dias sem sol
por dentro
serão um dia
o meu sorriso
nos dias
onde não haverá
mais sol
para mim
chamo-lhes
“eternidade breve”
são
as minhas netas
(nesse dia casava-se o meu filho pedro)
a muleta é o instrumento utilizado para empurrar a barca até ao mar, movida pela força dos bois no seu tempo e agora pelo tractor.
para além desta função ajuda também a que o barco se mantenha perpendicular à praia, proa feita ao quebrar das ondas, evitando que dê de “querena”. Empurra o barco até este ganhar calado para o motor.
A muleta tradicional é esta, de madeira, no entanto podem ser observadas outras variações, produto da criatividade dos pescadores, quer na praia de mira, quer na torreira, quer ainda a sua ausência quando são usados barcos mais pequenos, até com rodas, em praias com perfil de maior declive, que são empurrados directamente pelo tractor.
escrevam em todas
as paredes
em todos os muros
das cidades
e das aldeias mais perdidas
no fundo das serras
escrevam em todos
as folhas de papel
seja ele qual for
soltas ou em caderno
brancas, de cores ou mesmo
sujas
mas escrevam
escrevam tudo o que
ainda não disseram
o que eles ainda não
ouviram
as palavras com pedras
com gente, com fome
com injustiça, com desespero
as palavras que virem
nos rostos cansados
consumidos e cerrados
no cansaço deste estar aqui assim
escrevam
foi para isso que aprenderam
o que os outros não
se não o fizerem
de nada servirá o que sabem
não
isto não é um poema
não sei sequer o que é isso
é um vómito
sobre esta corja toda
e eu quero vomitar hoje
nos palácios
nas mansões
nas administrações
nas governações
escrevam
escrevam muito
que nunca é tudo
ao espectáculo da azáfama da xávega: homens, mulheres, máquinas, redes, cordas, barco, tractores, movimento, sons e vozes, nada nem ninguém fica indiferente.
até um cão, pára para olhar.
será que é preciso mais para que aqueles que deveriam ajudar na preservação desta arte centenária, atentem na necessidade de a apoiar para além do que até agora têm feito? (nada….)
até um cão, senhores, até um cão não fica indiferente à xávega.
(torreira, 2006)
atentos olhos
escutam movimentos
esperam a voz
a ordem o mando
tensas as cordas
fechado o cerco
as redes iniciarão
o regresso
maestro desta música
o arrais olha o mar
sente as correntes
no deslizar das bóias
na sinfonia das redes
os andamentos
é o mar que os dita
o arrais quem os traduz
assim aprendi
música
neste areal de luz
(torreira; século XX)