dois anos


rosarinho

não me lembro do tempo

em que não fazia anos

sequer dos primeiros que fiz

era criança e bebia os dias

ignorava que somando-os

o resultado era: ano

 

não sei quando comecei

a fazer anos

continuo a não me lembrar

um ano houve porém em que devo ter

começado

desde então continuei o que não soube

e pararei  sem saber, ainda, quando

 

dois anos

quantos dias são?

sabê-lo-ás quando um dia

no banco de uma qualquer escola

te disserem da soma dos dias

e um sorriso de seres gente

nos lábios

 

agora sorris somente

choras, fazes birras,

aprendes as primeira palavras

as imitações, as brincadeiras

cantas

és feliz sem o saber

e nisso reside

a verdadeira felicidade

 

dois anos

há quantos anos eu tive dois anos

eu sei

só não sei como foi

esse dia

e sou feliz na mesma

porque meus pais

nesse dia o foram

como eu, avô, o sou hoje

 

só queria dar-te um beijo

mas um dia, quando maior fores,

ler-te-ão estas palavras

e, quem sabe, também tu

não te lembrarás da festa

do dia em que fizeste dois anos

só isso


quando as árvores vêm do mar

 

gorduroso o tempo

pega-se-me às mãos

 

não

não te invento nome

nem corpo, nem ser

deixo-te estar assim

no limbo da imaginação

sossegadamente desassossegando-me

 

as palavras

não serão nada

onde tu fores

por isso

para quê gastá-las na invenção

de um tu?

 

estamos apenas

e nisso somos tanto

que se fôssemos de facto

o que seríamos?

 

esfrego as mãos na areia

onde nascem conchas e seixos

e aí

busco o sol

enquanto te espero

 

os dias

fazem-se de dias

só isso

é este o tempo dos cardos


tudo arde
 

pelo chão gravetos secos, comidos pelo sol

dizem o verde que houve. as rochas nuas

brilham a sede. o corpo busca na água a vida.

as moscas antecipam a putrefacção. o calor

esmaga no horizonte o azul. tudo é límpido

e simultaneamente vazio de sentido.

 

então digo: a morte circula nas veias um

sangue coagulado.

 

(memória de um tempo longe)

entende


casco velho

 

escrevo-te

de muito longe de mim

pairo algures

 

espero

espero sempre

um sopro de luz

uma concha, um búzio

uma flor entre folhas de palavras

um sorriso

 

escrevo-te

só para não estar só

só para ter a ilusão

de que existes

 

espero

que entendas

quando não receberes

o que não te envio

eu


uma gaivota só
 
uma gaivota
debica no horizonte
pedaços de céu
há mar ainda para além de 
 
haverá sempre mar
mar nos meus olhos
cansados da areia dos dias
insónia diurna de não ser 
 
quero-me a descer
a subir para a terra
aproximar-me mais de ti
que sou eu de outro modo
amar-te-me 
 
a gaivota aproxima-se
poisada no vento
traz sal e sol nas asas:
eu