a cama


ler as mãos

 

sobre a mesa
a toalha
de plástico, gasta
vincada de tanto

uma sopa
um pão
e um amontoado de comprimidos

a rua entra pela porta
de rachas abertas ao frio e ao sol
a rua é ali também

sobre a mesa
a toalha
a do almoço
do jantar
(se houver)
sempre a mesma

a toalha
onde as lágrimas
escrevem com sal
uma vida gasta
cansada
de tanto

sobre a mesa
sobre a toalha de plástico
adormeceu
tinha vendido a cama

uma carta


a casa possível

 

todos os dias

escrevia uma carta

só com remetente

destinatário em branco

 

eram cartas extensas

onde se dizia

 

de tempos

a tempos

o correio devolvia-lhe

uma carta

 

lia-a

com extrema atenção

afinal alguém lhe escrevera

 

assim enganava a solidão

 

 

 

queria dizer-te (poesia de cordel)


sem aparar, como aqui, o poemado

com: Silvana Batista; Isis Lyly; Maria José Barbosa, Rosa C Foss, Rosario Soares, Maria Vieira, Antonio Carlos, Carmo Mestre, Isabel Costa Pinto, Maria Mardesonhos, Tina Marques, Mariana Goinhas

queria dizer-te

 

que as montanhas tremem

devido à tua ausência

quisera dizer-te o silêncio que ficou

mas o vento levou-me a voz

não chores mais

 

há um rio

 

que passou na minha vida

um rio onde eu vou mergulhar

que há dias esquivos

que tem correntes

onde as águas já são turvas

e onde o tempo por nós não espera

remoinhos

nos teus cabelos

e talvez no coração

 

que há um rio

 

onde a nascente e a foz se fundem

e as lágrimas se confundem com a água

náufragos

os dedos tacteiam o escuro de não estares

e a ausência fere e dilacera

nas margens que te prolongam em fragilidades impossíveis

tremem

cansados de boiar

quebram-se as palavras que se não disse

porque tudo se transforma na limpidez tranquila do teu olhar.

para ti caminho

sem nunca querer atrás voltar

porque o silêncio do teu sorriso é uma manhã de luz

longínqua e tão próxima

incandescente no meu corpo afogado!

perdido em mim e em mim encontrado

e o teu nome pleno de cânticos de todas as aves

 

queria dizer-te

 

que o pássaros me pousam nos poros abertos em desalinho

que o ar que respiro me corta e mata sem doer

e que as mãos se estendem como flores nascendo

na luz do crepúsculo que nos acolhe

no meu peito terra aberta

ao dilacerante amor paixão

que nos consome com a nossa permissão

em lugar secreto porque rio imaginado

perdido

nos segredos seculares do teu peito

em ti me encontro para me voltar a perder

labirinto-me

escrevo-me

descrevo-te

percorro a tua face na minha mente

revejo-me

 

queria dizer-te

 

que em ti te me vejo

que me resumo a nada

e nado nos teus lábios de mar

a mar

este não ser sem ti

que o fogo e a água são a mesma natureza

no obscuro instinto do desejo

insensata e circular

anseio-te

 

mas queria dizer-te

 

um rio por entre os dedos

‎tanto te quero eu dizer que as palavras se confundem na minha boca

e  já nada se solta a não ser esta vontade louca de te ter aqui

que as sombras se tocam

que as frases se enlaçam em nós

e tocam em carícia os teus cabelos

onde pétalas

ainda salpicadas de puro orvalho

 

queria dizer-te

 

que não há limites para ti, centro de luz

que a vida se resume a ti

na corola imaginária do orvalho

na luz refractada na gota

onde os teus olhos brilham meu amor

 

queria dizer-te

 

que começará um dia a despedida

porque quero guardar o teu rosto para melhor te sonhar

e por onde a brisa passa sem nos tocar

que por ti verterei todas as dores que não escolhi

para que não seja nunca uma perda

que seja tão somente a melhor lembrança de nós

 

queria dizer-te

 

que não partiste

que de mim me esqueci para te poder lembrar

que mesmo distantes o rio imaginado será a unidade que procuramos

e o teu nome terá a magia do vento

e seremos peixes para sermos

aves

garças que se moldam entre si

voaremos de asas dadas

as ondas dizem o teu nome

gaivotas que pousam na areia

no mesmo areal onde te olhei

 

queria dizer-te

 

que ainda te sei

que ainda permaneces em mim

isto queria

ternura


como facas

 

aconchegadas no silêncio

as mãos poisam

num regaço de ternura

 

a ternura sabes

é um sorriso no rosto

de uma criança ou de um velho

é o teu sorriso, se

é o meu sorriso, porque

 

a ternura

está ali à espera

de uma mão cheia de outra

a ternura são duas mãos

a ternura é as mãos

 

aconchegadas no silêncio

esperam-te

espera-te

 

 

 

 

o vómito


também nos comboios

 

escrevam em todas
as paredes
em todos os muros
das cidades
e das aldeias mais perdidas
no fundo das serras

escrevam em todos
as folhas de papel
seja ele qual for
soltas ou em caderno
brancas, de cores ou mesmo
sujas

mas escrevam
escrevam tudo o que
ainda não disseram
o que eles ainda não
ouviram

as palavras com pedras
com gente, com fome
com injustiça, com desespero

as palavras que virem
nos rostos cansados
consumidos e cerrados
no cansaço deste estar aqui assim

escrevam
foi para isso que aprenderam
o que os outros não
se não o fizerem
de nada servirá o que sabem

não
isto não é um poema
não sei sequer o que é isso
é um vómito
sobre esta corja toda
e eu quero vomitar hoje
nos palácios
nas mansões
nas administrações
nas governações

escrevam
escrevam muito
que nunca é tudo

súbito


vem voar comigo

súbito
o tempo caiu
sob o tempo
vergou-se

um sorriso
espreita
tímido
do rosto cansado

o corpo
esse animal outrora
desobediente
cede

súbito
é sempre assim
o que é
não sabe como
ser

súbito!
ergue-te
e caminha
o teu tempo
ainda não caiu
sobre ti

toma a minha mão
e vamos por aí
em busca do tempo
para o varrer
nem que seja
por mais um tempo