quando o mar trabalha na torreira_fina murta


delfina (fina) murta

 

será carapau….

o mar dá
o que as traineiras deixam
o arrasto não estraga

trabalhar aqui
é ser mais um braço
laço
que une terra e mar
fome e desejo

será sardinha ….

dias passam
barcos partem e regressam
sempre com a esperança
poisada na proa

vivemos de promessas de mar
cantos de sereia
em dias que urge
a pesca ser boa

(torreira, século XX)

 

é urgente


o pescador filósofo

ando por aí
no inventar de caminhos
encontros e desencontros
fabricando sonhos
nas noites diurnas

a acender fogos
no seio das rochas mais frias
para que nasçam rios cheios
de olhos abertos

a plantar árvores
em cima do mar
ver crescerem barcos
onde mais que homens são
os que lá dentro vão

na minha rede só letras
plantadas nos regos abertos pela enxada
desta cabeça imparável

acender lume nas pedras
abrir olhos nos rios

é urgente

(torreira; companha do marco; 2011)

xávega_o aparelhar


o saco

 
barco no mar, barco em terra, trabalho sempre.
 
neste registo podem-se ver as redes sobre a  “zorra” (espécie de maca de madeira, constituída por tábuas pregradas sobre dois rolos atravessados na face inferior), para não se encherem de areia, enquanto se começa a aparelhar o barco.
 
de notar que, neste caso, se começa pelo saco. o falecido arrais zé murta, carrega a extremidade do saco, que depois contornará a bica da ré para ficar abraçado nela.
 
(torreira, companha do murta, 2007)
 

quando o mar trabalha na torreira_manuel neto


manuel neto

 

seria nevoeiro
não fosse do cigarro
o fumo

aqui tudo é condicional

contam-se histórias
espera-se melhor
vive-se do que o mar dá

tudo no seu tempo
foi é será condicional

até a areia
é outra
quando surge de verão
com o novo vestido
que a invernia moldou

é de mar o tempo
em que o verbo ficou

 

(torreira, século XX)

xávega_do arribar (5)


agostinho tabalhito (canhoto)

 
ainda o barco vai de arrasto pelas areia e já começa uma outra faina, a do escoar a água que entrou no barco e areia que ficou depositada no fundo, deixada cair por calas e rede.
 
o agostinho trabalhito (canhoto) empunha um escoadouro de metal, mas que normalmente é de madeira ou, até, improvisado cortando garrafas de plástico de 5 cinco litros ou mais.
 
a este utensílio também se dá o nome “vertedouro” nas artes da ria.
 
(torreira; companha do murta; 2007)

xávega_do arribar (4)


olá sam paio_arribar

 
neste registo vê-se bem o falecido arrais zé murta, na bica da ré a segurar a cala “mão de barca” – corda que fecha o cerco e vem com o barco – laçada na bica da ré.
 
é ela que faz o fixe do barco e é através do deixar correr, ou prender, que o arrais vai deixando o barco aproximar-se de terra ou, como dizem os surfistas, “apanhar a onda” que o trará em segurança até terra.
 
por vezes, muitas vezes, são necessárias várias ondas para o conseguir. o arrais é então o verdadeiro mestre da “arte de bem arribar com qualquer mar”
 
(torreira; companha do murta; 2007)

quando o mar trabalha na torreira_luisa da calada


 luísa da calada

(irmã do arrais joão da calada e viúva de tiago branco)

sei das letras os desenhos
pelas crianças feitos
na areia da praia

no alfabeto da minha vida
cada dia é uma letra
umas mais cheias
outras mais finas
escritas pelo mar
dia a dia marcadas
no corpo que no meu rosto
se espelha

dos números
as contas
somar peixe
dividir sardinha pão
subtrair dias de norte

multiplicar
nunca houve o quê
neste viver feito do mar
azar e sorte

(torreira, século XX)

xávega_o arribar (3)


a espera
o zé caravela e a marlene murta esperam, de ganchos na mão, o arribar do barco de mar que, pela postura e o olhar de ambos, estará para pouco.
 
este registo é o reconhecimento da marlene como mulher da torreira, sem quaisquer problemas de assumir tarefas que normalmente só aos homens cabem.
 
(torreira; companha do murta; 2007)